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Por que investidores preferem risco ao tédio da renda fixa – 22/03/2026 – De Grão em Grão

by Silas Câmara

Outro dia um amigo me fez uma pergunta curiosa: por que eu perdia tempo lendo livros e estudos sobre comportamento humano se minha área de atuação é economia e finanças? À primeira vista, parecem temas pouco relacionados. Mas, na prática, entender como as pessoas reagem a estímulos e tomam decisões é fundamental no meu trabalho. Isso me ajuda a orientar investidores quando talvez não estejam fazendo a melhor escolha e a identificar quais influências podem estar moldando suas decisões.

Por exemplo, ajuda a explicar uma pergunta comum no mercado: se a renda fixa está pagando juros elevados, previsíveis e com baixo risco, por que tantos investidores continuam procurando algo mais arriscado?

Parte da resposta pode estar em um experimento famoso da psicologia. Em 2014, pesquisadores publicaram na revista Science o estudo “Just Think: The Challenges of the Disengaged Mind”. No experimento, voluntários foram convidados a permanecer sentados por alguns minutos sozinhos, sem celular, livros ou qualquer distração —apenas com seus próprios pensamentos.

O resultado revelou algo desconfortável: para muitas pessoas, fazer nada era pior do que sentir desconfortáveis estímulos dolorosos. Alguns participantes preferiram aplicar em si mesmos choques elétricos a continuar ali sem estímulo algum.

Outros estudos ajudam a entender esse comportamento. Em experimentos de neurociência, participantes precisavam escolher cartas em um jogo que oferecia recompensas diferentes. Curiosamente, quando surgia uma carta nova, cuja recompensa ainda era desconhecida, muitos preferiam escolhê-la, mesmo existindo outra opção cuja recompensa já era conhecida.

Ao se deparar com a novidade, uma região do cérebro chamada estriado ventral era ativada. Essa área está associada à liberação de dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de prazer. A novidade, por si só, já gera uma resposta positiva no cérebro.

Esse mecanismo ajuda a explicar algo que vemos frequentemente no mercado financeiro.

Quando a renda fixa paga taxas elevadas e previsíveis, do ponto de vista racional ela pode ser extremamente atraente. No entanto, para muitos investidores, ela também pode parecer entediante. Não há histórias empolgantes. Não há a expectativa de um ganho extraordinário.

Há apenas disciplina e paciência.

O problema é que o cérebro humano foi moldado em um ambiente em que explorar o desconhecido aumentava as chances de sobrevivência. A curiosidade e a busca por novidade eram características adaptativas.

Esse impulso continua presente.

No mercado financeiro, ele aparece quando o investidor sente necessidade de agir, mesmo quando a melhor decisão seria simplesmente esperar. Surge a tentação de trocar ativos, buscar uma nova estratégia ou procurar a próxima grande oportunidade.

Mas muitas vezes essa movimentação não nasce de uma análise mais profunda. Ela surge apenas do desconforto provocado pela ausência de estímulos.

Por isso investir bem é, em grande medida, um exercício de autocontrole. Não apenas de escolher bons ativos, mas de reconhecer quando nossa mente está procurando emoção onde deveria haver apenas disciplina.


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