Imagine um pai que promete ao filho um presente específico no Natal. Meses antes, tudo parecia certo: o brinquedo estava disponível, o preço cabia no orçamento e nada indicava que haveria problema. Mas quando dezembro chega, os preços mudaram. O produto desaparece das lojas e fica muito mais caro. O que o pai deveria fazer?
Algo parecido acontece nesta semana com a decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil.
Na ata da reunião de janeiro, o documento foi bastante claro ao afirmar que o Comitê “antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião”.
A interpretação do mercado foi direta: a expectativa passou a ser de que o ciclo de queda da taxa Selic em março, com um corte de cerca de 0,5 ponto percentual.
Mas, assim como na história do presente de Natal, o cenário mudou.
A escalada recente de tensões geopolíticas no Oriente Médio trouxe de volta um velho risco para a inflação global. O petróleo voltou a subir, assim como o câmbio, que vinha em trajetória de queda, passou a mostrar maior volatilidade.
Esses movimentos afetam diretamente as expectativas de inflação e, consequentemente, as decisões de política monetária. Afinal, o combustível já sobe na bomba, consequentemente impacta o custo de transporte de mercadorias.
O dilema para o Banco Central é claro. O Comitê pode iniciar o ciclo de cortes apostando que o conflito será curto e que o impacto sobre os preços de energia será passageiro. Ou pode adotar uma postura mais cautelosa e esperar a próxima reunião, no fim de abril, quando haverá mais informações sobre os efeitos econômicos do conflito.
Um banco central, porém, não deveria apostar —principalmente quando isso implica o risco de precisar rever a decisão apenas um mês depois. Por esse motivo, adiar o início do ciclo de queda pode ser a alternativa mais prudente.
O próprio mercado já começou a incorporar essa possibilidade.
No dia 27 de fevereiro, os contratos futuros de juros indicavam expectativa de corte acumulado de cerca de 2,75 pontos percentuais ao longo de 2026, levando a Selic para 12,25% ao final do ano. O consenso para a reunião desta semana era um corte de 0,5 ponto percentual.
Após os eventos recentes, porém, esse cenário mudou. Dados mais recentes da curva de juros — refletidos nos contratos DI futuros negociados na B3 —indicam expectativa de redução de apenas 1 ponto percentual ao longo deste ano. Isso implicaria uma Selic próxima de 14% no final de 2026.
E o impacto pode ir além do petróleo.
Segundo relatório de um dos maiores hedge funds do mundo, o Citadel, mais de 30% da produção global de ureia e amônia —insumos essenciais para fertilizantes— está concentrada na região do Golfo.
Um eventual choque nessa cadeia pode produzir efeitos semelhantes aos observados no início da guerra Rússia-Ucrânia, quando a alta dos fertilizantes acabou pressionando o preço dos alimentos em vários países.
Algumas commodities agrícolas, inclusive, já retomaram a alta nas últimas semanas.
Se combustíveis e alimentos voltarem a pressionar a inflação global, diversos bancos centrais poderão ter de rever seus planos de queda de juros —não apenas no Brasil. E isso em parte já se reflete nas taxas de juros nos EUA com o movimento destas últimas duas semanas.
Para o investidor, a consequência prática é relativamente simples. Pequenos ajustes na carteira podem fazer sentido, para aproveitar movimento dos preços, mas trocar de forma agressiva aplicações pós-fixadas na renda fixa por outras indexações ainda parece prematuro.
Existem produtos de renda fixa pós-fixados pagando mais de 110% do CDI, oferecendo uma combinação interessante de segurança e retorno real positivo acima de 10% ao ano no curto prazo.
Quando o cenário econômico se torna mais incerto, a prudência costuma render mais do que a pressa. Em investimentos, muitas vezes o melhor movimento é não fazer qualquer movimento.
Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.
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