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Por que seu Tesouro Direto caiu mesmo com a queda da Selic? – 20/03/2026 – De Grão em Grão

by Silas Câmara

Você já comprou algo acreditando que tinha feito um ótimo negócio e poucos dias depois descobriu que o preço caiu? A sensação é de ter errado —mesmo quando, na verdade, nada mudou no plano original.

Foi exatamente isso que aconteceu com muitos investidores do Tesouro Direto neste mês.

Ao longo da semana, recebi duas perguntas praticamente idênticas. A primeira: “Comprei o Tesouro Prefixado 2032 no mês passado esperando ganhar mais de 1% ao mês até o vencimento. Como é que, já no primeiro mês, estou com retorno negativo?”.

A segunda vinha carregada de frustração: “Sempre me disseram que, quando a Selic cai, o Tesouro sobe. A Selic caiu… e eu perdi dinheiro. O que aconteceu?”.

A resposta para ambas passa por um conceito que separa o investidor que entende o que está fazendo daquele que apenas repete o que ouviu: a marcação a mercado.

Em meados do mês passado, o título público prefixado citado oferecia uma taxa próxima de 13,20% ao ano —o equivalente a algo acima de 1% ao mês na média até o vencimento. Mas aqui está o primeiro erro comum: essa taxa nunca foi uma promessa de retorno mensal linear. Ela é uma média esperada para quem leva o título até o vencimento.

No meio do caminho, o preço oscila. E, neste mês, oscilou contra.

Para ficar concreto: esse mesmo título prefixado era vendido por R$ 482,40 nesta sexta (20). No vencimento, seu valor será de R$ 1.000,00, refletindo a taxa contratada.

Com a alta das taxas de mercado, porém, esse mesmo título passou a valer R$ 466,52. Não porque o governo vá pagar menos no vencimento, mas porque os investidores passaram a exigir um retorno maior.

Como o valor final continua sendo R$ 1.000, o ajuste acontece no preço de hoje: ele precisa cair para que a nova taxa seja atendida.

É por isso que o investidor pode ver perdas no meio do caminho —mesmo em um investimento que, no vencimento, tende a entregar o retorno prometido.

E por que isso ocorreu?

Ao longo de março, o cenário mudou. Ruídos vindos da guerra no Oriente Médio, somados ao receio de alta dos combustíveis e seus efeitos sobre a inflação, fizeram o mercado exigir mais juros para emprestar dinheiro ao governo. Não foi apenas a taxa que subiu, foi o prêmio exigido para carregar risco em um ambiente mais incerto.

Na prática, a taxa deste título saiu de 13,20% ao ano para 14,20% ao ano.

E aqui está a regra que muitos ignoram: quando a taxa sobe, o preço cai. Essa é a mecânica do mercado. Renda fixa não significa preço ou juros fixo antes do vencimento.

A segunda dúvida, sobre a queda da Selic, revela outro equívoco comum —e talvez mais perigoso. A ideia de que “Selic caiu, então vou ganhar dinheiro” é uma simplificação que costuma levar a decisões ruins.

O que move os títulos de prazo mais longo não é a Selic de hoje, mas a expectativa para os juros futuros.

Embora tenha havido uma redução recente da taxa básica, o movimento foi menor do que o mercado esperava meses atrás. Mais importante: as expectativas para as próximas quedas também foram revisadas para baixo. O resultado foi contraintuitivo para muitos investidores: as taxas de longo prazo subiram —e os preços dos títulos caíram.

A Selic é uma taxa diária, definida pelo Banco Central. Já os juros de prazos mais longos são definidos pelo mercado, a partir do equilíbrio entre quem compra e quem vende. Quando aumenta a incerteza —seja por fatores externos, como uma guerra, ou internos, como dúvidas fiscais— os investidores passam a exigir mais prêmio para carregar risco no tempo.

E esse prêmio maior aparece imediatamente no preço.

Voltemos à analogia inicial. Você não errou ao comprar algo que acreditava ser um bom negócio. O erro, quando existe, está em não entender como esse “preço” é formado, e como ele pode oscilar antes do vencimento.

No Tesouro Direto prefixado ou referenciado ao IPCA, isso não é exceção, é a regra.

A pergunta que realmente importa não é “por que caiu?”, mas sim: você comprou sabendo que ele poderia cair antes de te entregar o retorno prometido? Ou ainda, você pode segurar o título até o vencimento para ter o retorno prometido?

Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.


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