O molho de Wagner Moura não estava ao gosto dos votantes do Oscar, que preferiram o tempero de casa e serviram a estatueta de melhor ator ao americano Michael B. Jordan para seguir a receita de costume.
Foi o que aconteceu também no ano passado, com a performance saborosa de Fernanda Torres sendo preterida pela da jovem americana Mikey Madison, e em 1999, quando Fernanda Montenegro perdeu para o desempenho insosso de Gwyneth Paltrow.
O gosto dos milhares de votantes do Oscar —e de Hollywood em geral—, afinal, nem sempre coincide com aquele do povo. Ou ao menos daquele que despertou mais atenção nas redes sociais.
Foi o caso de Moura, que, se não chegou à popularidade de Jordan entre seus pares, surfou na sua proximidade com os americanos e se tornou uma espécie de caça-cliques da indústria —com a força dos usuários brasileiros ajudando a aumentar o engajamento em torno da premiação.
No Governors Awards, festa para indicados que ocorreu em novembro do ano passado, Moura teve a foto mais curtida do evento no Instagram, bem mais que as dos galãs Jonathan Bailey e Jacob Elordi.
Fernanda Torres fez o mesmo em 2024, quando sua foto viralizou e ganhou mais likes que a da americana Demi Moore, estrela de blockbusters.
Mesmo assim, não deu Brasil. Os cerca de 10 mil votantes da Academia são, em maioria, profissionais da indústria americana, o que historicamente —e na prática, pelo esquema de votação— favorece os artistas de lá.
Isso não impediu que Moura, neste ano, e Torres, no anterior, virassem os principais rostos de matérias publicadas nas redes pelos grandes veículos internacionais, mesmo aquelas que falavam de assuntos mais amplos.
Brasileiros deixavam centenas, senão milhares de comentários, o que logo se provou aos americanos um jeito fácil de criar engajamento. Em tempos de crise de audiência no Oscar, que vinha perdendo público ano a ano, o fervor da paixão brasileira veio a calhar.
Neste domingo, quando “O Agente Secreto” saiu de mãos vazias da premiação, brasileiros encheram as publicações da página da Academia no Instagram com protestos. Pediam recontagem de votos e diziam que o prêmio de melhor filme internacional para o norueguês “Valor Sentimental” era marmelada, que o longa tinha cara de obra americana.
O que talvez explique por que levamos a melhor no ano passado. Walter Salles fez de “Ainda Estou Aqui” um filme mais universal do que é “O Agente Secreto”, de caráter regionalista, na história, nas performances, nos sotaques, na reconstrução de Recife dos anos 1970.
O que, por sua vez, parece ter encantado o Globo de Ouro, que, após uma crise interna quase virar pastiche de premiação, reformou seu grupo de jornalistas votantes para abraçar muita gente de fora dos Estados Unidos.
O resultado é que Torres e Moura saíram premiados de lá em dois anos seguidos, à frente de medalhões de Hollywood —ele venceu em cima Michael B. Jordan, para quem perdeu no Oscar, e ela, de Nicole Kidman.
Na vida real, fora da internet, Moura fez a campanha dos sonhos. Deu entrevista para Jimmy Kimmel, um dos apresentadores mais populares da TV americana e estampou reportagens de fôlego em veículos importantes no meio, como a revista Variety e o jornal The New York Times. É o tipo de exposição que vai além do circuito cinéfilo e põe um artista no radar de votantes mais velhos da Academia.
Ele participou também de dezenas de exibições do filme nas principais capitais do país, de Los Angeles a Nova York —e também em outros polos importantes, como Londres e Canadá—, e aprendeu a explicar, em inglês, os muitos signos bem brasileiros de “O Agente Secreto”.
Isso foi essencial. Para fazer os americanos entenderem como foi a ditadura militar aqui, Moura a comparava aos extremismos políticos que historicamente acontecem por lá. Disse, por exemplo, que Jair Bolsonaro era o Donald Trump brasileiro, num momento em que a classe artística americana está em guerra com o republicano. Mas não foi o suficiente.