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Precisamos ajudar mães para aumentar taxas de natalidade – 25/02/2026 – Martin Wolf

by Silas Câmara

Criar filhos é o que Claudia Goldin, vencedora do Nobel de economia de 2023, chama de “trabalho ganancioso”, que é aquele que exige não apenas longas, mas imprevisíveis horas.

Porém, ser pai ou mãe difere de outros trabalhos desse tipo —como o de banqueiro de investimentos, por exemplo— por não ser remunerado. Infelizmente, é impossível fazer dois “trabalhos gananciosos” ao mesmo tempo. Isso cria um dilema.

Os pais podem ter trabalhos gananciosos e entregar os filhos a cuidadores profissionais em tempo integral, o que é financeiramente (e emocionalmente) caro. Ou apenas um deles pode ter o “trabalho ganancioso” bem remunerado. Ou ambos podem ter trabalhos não gananciosos e aceitar baixa renda familiar. Ou podem simplesmente não ter filhos.

Essas escolhas são resultado de opções amplamente indisponíveis para as mulheres antes da Segunda Guerra Mundial. Na maioria dos países, elas são ainda mais recentes. São uma das razões pelas quais, como observa um relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) de 2024, “a taxa de fecundidade total caiu pela metade, de 3,3 filhos por mulher em 1960, em média nos países da OCDE, para 1,5 em 2022″.

Pode-se argumentar que esse colapso na fecundidade em países de alta renda (e muitos outros), junto com a população crescente da África, o continente mais pobre, é o que está acontecendo de mais importante com a humanidade agora.

Há muitas explicações para o declínio de longo prazo na fecundidade, notadamente a queda na mortalidade infantil, a urbanização em massa, a dependência prolongada e custosa dos filhos, a “corrida” para produzir filhos economicamente bem-sucedidos e, não menos importante, a capacidade de contar com outras formas de segurança na velhice, como aposentadorias e casas de repouso.

Também crucial, no entanto, especialmente para os declínios mais recentes para taxas de fecundidade ultrabaixas, é o conflito entre as melhores oportunidades para as mulheres e a parcela desproporcional dos custos econômicos (e riscos físicos) dos filhos que elas continuam a suportar.

Assim, um estudo da Inglaterra de abril de 2014 a dezembro de 2022 observa que “ter filhos leva a uma redução substancial e duradoura nos rendimentos das mães; cinco anos após o nascimento do primeiro filho (trimestre de 2020), os rendimentos mensais foram reduzidos em média em 42%, ou 1.051 libras (R$ 7.312,75) por mês, em comparação com os rendimentos um ano antes do nascimento”. Trabalhos do Institute for Fiscal Studies também mostram que a penalidade da maternidade é maior para mães de filhas, porque isso reforça as normas tradicionais de gênero.

Um levantamento global de 134 países produzido por Henrik Kleven, de Princeton, e dois outros autores conclui que “normalmente à medida que os países ficam mais ricos, as penalidades por ter filhos assumem o papel de principal impulsionador da desigualdade de gênero”.

Além disso, um estudo apenas da Dinamarca, também coautorado por Kleven, observa que a “fração da desigualdade total de rendimentos [de gênero] causada pelas penalidades por ter filhos dobrou ao longo do tempo, de cerca de 40% em 1980 para cerca de 80% em 2013”. Mesmo na Dinamarca, a penalidade da maternidade é grande e persistente. Presumivelmente em parte como resultado, sua taxa de fecundidade despencou para 1,5 em 2025, embora a Dinamarca tenha um dos estados de bem-estar social mais generosos do mundo.

Portanto, as mulheres pagam um preço mais alto por ter filhos. Além disso, segundo um relatório da OCDE, “o custo dos filhos é consistentemente mais alto para famílias monoparentais”. Naturalmente, então, a confiabilidade dos parceiros também é crucial, como Goldin argumentou. Além disso, se alguém quer um cuidador na velhice, ter apenas um filho é melhor, segundo pesquisadores da University College London.

A economia, então, é contra um grande compromisso com a procriação, especialmente para as mulheres. Somam-se a isso mudanças nos valores, incluindo divergências entre homens e mulheres e um declínio na crença religiosa. Nesse contexto, uma coluna recente no VoxEU avalia que “políticas como creches subsidiadas, créditos fiscais expandidos para filhos ou pagamentos de bônus por bebê podem aliviar a pressão financeira e melhorar várias medidas de bem-estar familiar, mas mudanças eventuais nesses fatores não têm sido associadas a grandes mudanças sustentadas na fecundidade”.

Algo maior é necessário. Os autores sugerem que isso pode exigir “uma reformulação dramática da sociedade de modo que a parentalidade se torne mais compatível com uma vida adulta plena e próspera”, como isso é entendido hoje.

Então, o que deve ser feito? Em países com taxa de nascimento ultrabaixa, especialmente aqueles determinados a evitar a imigração em massa, um esforço sistemático para reduzir os custos para os pais e, acima de tudo, reduzir as penalidades sobre as mulheres é uma necessadade urgente. Quão eficaz isso será não está claro, embora valha a pena tentar.

Políticas semelhantes também podem funcionar em países com taxas de fecundidade acima de 1,5. No entanto, por razões apresentadas na semana passada, isso é menos urgente: um declínio populacional gradual seria, na minha opinião, aceitável. Mas, especialmente onde a fecundidade tem sido muito baixa, será vital que os idosos trabalhem. Isso trará grandes benefícios para os próprios idosos. Com o foco em melhorar a saúde deles, especialmente em reduzir o enorme impacto da demência, também será essencial.

Inevitavelmente, a combinação de um mundo rico envelhecendo com um mundo em desenvolvimento mais jovem tornará a questão da imigração permanente. Mas note que, como os imigrantes também envelhecem, isso não pode ser uma resposta duradoura à baixa fecundidade, a menos que se aceite uma transformação contínua na composição étnica de um país. Goste-se ou não, a resistência a isso está aumentando em toda parte.

Uma resposta alternativa é aceitar o envelhecimento rápido, enquanto se espera que seu impacto possa ser amenizado por avanços rápidos em inteligência artificial e robótica. Outra ainda, agora sendo cogitada pela direita, é transformar as mulheres (de volta) nas servas descritas em “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood.

A resposta correta é ajudar e recompensar os pais, especialmente as mães. O que eles fazem molda o futuro. O resto de nós só pode ajudar.

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