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Que tal substituirmos juízes por inteligência artificial? – 06/03/2026 – Hélio Schwartsman

by Silas Câmara

E se trocássemos os juízes por um algoritmo de IA (inteligência artificial)? Admito que há algo de capcioso na pergunta. Não tanto pelo conteúdo, mas pelo “timing”. O Judiciário brasileiro vive um mau momento, com ministros do STF enrolados no escândalo do Master, o problema dos penduricalhos sob os holofotes da imprensa e o caso da venda de sentenças no STJ, entre outras histórias pouco edificantes.

Essa conjunção de crises tende a inflar as preferências pela IA. A mesma pergunta feita alguns meses atrás, quando se louvava a firmeza do Supremo na defesa da democracia, talvez gerasse outras respostas.

O mundo é de fato complicado. As mesmas pessoas e instituições que acertam num caso podem errar em outros. No mais, o menor custo das IAs quando comparado ao de salários magistocráticos e a invulnerabilidade dos computadores à corrupção e a paixões como ganância, relações de amizade e até ao amor são itens que devem mesmo ser incluídos na coluna de vantagens do algoritmo.

Em nome da universalidade, porém, podemos tentar responder à pergunta ignorando disfuncionalidades muito características do Brasil. Em países em que os custos do Judiciário são mais contidos e nos quais magistrados não frequentam com tanta assiduidade o noticiário político ou policial também valeria substituir juízes de carne e osso por programas de computador?

Já comentei aqui o livro “Ruído”, em que Daniel Kahneman, Olivier Sibony e Cass Sunstein fazem uma defesa enfática da superioridade das IAs. Não porque os algoritmos sejam particularmente bons na tarefa, mas porque humanos somos péssimos nela. Na visão dos autores, a mente humana é arquiteturalmente incapaz de fazer julgamentos que sejam ao mesmo tempo objetivos e consistentes. Qualquer algoritmo, mesmo os mais simples, se saem melhor do que pessoas.

Não consigo discordar. Se me fosse dada a escolha entre ser julgado por um juiz de verdade e uma IA, não pestanejaria: sendo inocente, correria para o algoritmo; se culpado, tentaria a sorte com um humano.


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