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Quem se lembra da Escola de Samba Quilombo? – 13/02/2026 – Gustavo Alonso

by Silas Câmara

Os mais novos talvez nunca tenham ouvido falar. Os mais antigos talvez não se recordem. E os atuais identitários talvez achem esquisito um movimento negro que não se paute pela inclusão mercadológica de sua ideologia.

Foi em 1975 que o compositor Candeia encabeçou a criação do Grêmio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo (Granes Quilombo). Contando com pares de peso entre os integrantes como Clementina de Jesus, Paulinho da Viola, Nei Lopes Monarco, Elton Medeiros e Wilson Moreira, sua escola de samba era uma crítica à mercantilização do Carnaval.

Em 1978, ano de sua morte, Candeia lançou o livro “Escola de Samba: A Árvore que Esqueceu a Raiz”, junto com o colega Isnard de Araújo. Nele consolidaram os ideais que uniam a luta racial à crítica ao mercantilismo das festas populares.

Antes mesmo da inauguração do sambódromo, que foi construído para o Carnaval de 1984, Candeia já era um crítico feroz da “mercantilização” do Carnaval. A transformação da festa popular em competição instrumentalizada pela RioTur, a estatal do turismo carioca, aliada à transmissão pela televisão, havia degringolado na deturpação do sentido social das escolas de samba.

Teria havido, segundo Candeia, uma apropriação branca dos valores populares e negros. Em resposta, o compositor e seus pares fundaram a escola de samba que visava resistir assim como os quilombos fizeram na ordem escravocrata. Segundo suas palavras, “a Quilombo nasceu da necessidade de se preservar toda a influência do afro na cultura brasileira”.

Para o compositor, ao se submeter a valores exógenos, as escolas de samba estavam produzindo uma “forma alienada de cultura [e] os sambistas estão sendo anestesiados, controlados e roubados”.

A cultura negra das periferias estaria sendo roubada ao mesmo tempo em que o Carnaval era profissionalizado, perdendo autenticidade e espontaneidade. Candeia demarcava que “o compositor não faz mais samba pensando em sua escola, em sua cultura; agora pensa na gravadora”. Gradualmente, o controle dos desfiles foi retirado da mão dos sambistas e tomado pelos carnavalescos. Os ensaios, em vez de serem performances de unificação comunitária, tornaram-se bailes de Carnaval, ideais para agradar turistas e a classe média e alta brancas.

Candeia também se indignava com o crescimento de investimentos no Carnaval que não se refletiam nas comunidades, realidade bem presente até hoje. Todo ano milhões de reais são repassados por Prefeitura do Rio de Janeiro e Ministério da Cultura para as escolas de samba, sem haver de fato contrapartida social na vida das multidões periféricas. Isso sem falar na espúria relação da festa com os gerentes do jogo do bicho, algo que apenas começava a se esboçar quando Candeia escreveu seu livro.

Para lutar contra tudo isso, Candeia propôs que a Escola de Samba Quilombo não participasse de nenhuma liga nem dos desfiles oficiais das principais escolas, colocando-se como uma vanguarda contra a espoliação da cultura negra. Desfilavam na rua, sem holofotes ou transmissão de TV, agregando foliões pelo prazer de fazer samba.

Apesar do romantismo de suas demandas, assim como de certa idealização da negritude, Candeia tinha um ponto ainda hoje importante. O Carnaval das escolas de samba tal como hoje conhecemos representa na verdade a estilização da cultura popular.

A pauta de Candeia fazia sentido. Durante os anos de minha infância e adolescência no Rio de Janeiro, entre os anos 1980 e 1990, não havia muita opção para quem não era adepto do sambódromo. Naqueles anos, o desfile na Marquês de Sapucaí havia engolido os blocos de rua, que ficaram sem expressão.

Foi só no início do século 21 que os blocos de Carnaval foram gradualmente se rearticulando, reconstruindo o Carnaval carioca de baixo pra cima. De certa forma esse era o espírito do que Candeia defendia: um Carnaval mais do povo do que do Estado ou da Prefeitura. Uma articulação mais da sociedade civil do que patrimonialista. A rebeldia de Candeia era uma crítica contundente àqueles sempre à espera das verbas estatais, ególatras em busca da aparição na televisão e papagaios de pirata de políticos.

Enquanto isso, este ano a escola de samba Acadêmicos de Niterói irá homenagear o presidente Lula na Marquês de Sapucaí, num show de puxa-saquismo em ano eleitoral. O samba na avenida ainda carrega as marcas que fizeram Candeia se rebelar.


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