41,9% das indústrias brasileiras com cem ou mais funcionários utilizavam inteligência artificial em alguma área em 2024, segundo o IBGE. Entre as que adotavam a tecnologia, o uso se concentrava em atividades administrativas (87,9%) e em processos comerciais (75,2%). Quando a IA assume funções de escritório, saber quais trabalhadores têm menos condições de enfrentar essa mudança importa tanto quanto saber quais funções estão mais expostas.
É esse o foco do working paper de Sam Manning e Tomás Aguirre do Centre for the Governance of AI: a exposição à IA não é sinônimo de vulnerabilidade. Para medir o que de fato separa trabalhadores mais e menos preparados para uma ruptura, os autores construíram um índice de capacidade de adaptação com base na riqueza líquida, na transferibilidade de habilidades, na densidade do mercado de trabalho local e na idade. Afinal, a aptidão para recolocação depende, sobretudo, do que cada trabalhador tem à disposição no momento da substituição.
Nos Estados Unidos, mera exposição e vulnerabilidade não se sobrepõem totalmente. Entre os 37,1 milhões de trabalhadores mais expostos à IA, 26,5 milhões estão em ocupações com adaptabilidade acima da mediana. A vulnerabilidade aparece em outro grupo: 6,1 milhões de trabalhadores são aqueles que combinam alta exposição e baixa capacidade de adaptação, concentrados em funções administrativas e de apoio.
Na prática, quem tem poupança consegue sustentar por mais tempo a busca por uma vaga comparável sem aceitar um rebaixamento. Já quem vive em locais com mais dinamismo econômico encontra mais portas de saída ao mudar de função. E quem acumulou habilidades reconhecidas fora do cargo de origem tende a se recolocar com mais facilidade.
Por exemplo, uma assistente administrativa pode coordenar agendas complexas, organizar fluxos de informação e resolver problemas sob pressão. Ainda assim, se esse repertório for lido apenas como suporte administrativo, dificilmente será reconhecido como gestão de projetos ou coordenação operacional, ainda que possua tais habilidades. O problema não está apenas no que a pessoa sabe fazer, mas também na dificuldade de converter esse repertório ou apenas traduzi-lo para um novo emprego.
A idade entra no índice principal como proporção de trabalhadores com 55 anos ou mais em cada ocupação. A literatura citada indica que esse grupo enfrenta maior dificuldade de requalificação, menor chance de reemprego e perdas salariais. Ainda, trabalhadores dessa faixa etária acumulam perdas quatro anos após demissões em massa e são 16 pontos percentuais menos propensas a se reempregar do que as de 35 a 44.
Já o gênero, embora não seja um pilar do índice, aparece nos resultados. No grupo com alta exposição e baixa capacidade adaptativa, 81,3% são mulheres, historicamente concentradas nas funções administrativas e de apoio, com salários mais baixos e menor acumulação de patrimônio.
O estudo é americano e não estima a probabilidade de demissão; contudo, o mecanismo descrito ajuda a pensar o caso brasileiro. Se riqueza líquida é um dos principais amortecedores da transição, renda média mais baixa, maior informalidade e trajetórias ocupacionais mais instáveis reduzem a margem entre uma mudança administrável e uma queda abrupta de renda. As ferramentas de adaptação que o índice mede tendem a ser menores justamente nos grupos mais expostos.
Logo, mapear a exposição sem a capacidade de adaptação dificulta a compreensão tanto das áreas de resiliência quanto dos bolsões de vulnerabilidade. Se não avançarmos no tema com esse olhar no Brasil, nos arriscamos a discutir como lidar com a automação sem a clareza sobre quem terá mais dificuldade para atravessá-la.
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