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Retorno da BTS traz à tona lado sombrio do K-pop – 20/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

O K-pop transborda talento, estilo e trabalho duro, mas a bem-sucedida indústria musical sul-coreana também tem um lado sombrio, às vezes com resultados trágicos.

Diante do show de retorno do BTS neste sábado, a AFP analisa a intensa competição, o treinamento exaustivo, o rígido controle sobre a vida das estrelas e o comportamento às vezes obsessivo dos fãs.

As gravadoras sul-coreanas lançam dezenas de novos grupos a cada ano com a esperança de que se tornem os próximos BTS ou Blackpink, mas com cerca de 300 grupos já em atividade, alcançar o grande sucesso é difícil.

A pequena minoria dos milhares de jovens aspirantes que superam a fase de audição pode enfrentar jornadas de 15 horas de sessões de academia, aulas de canto, sessões promocionais e ensaios de dança. Às vezes não dormem em casa, mas em beliches em moradias compartilhadas, com um controle rígido sobre suas vidas, incluindo o que comem, seu peso e sua aparência.

Em uma entrevista à AFP em 2020, a ex-integrante do Nine Muses, Ryu Sera, comparou isso a um “sistema de produção em massa tipo fábrica”, onde as pessoas são tratadas como “produtos substituíveis”.

Mas os responsáveis pela indústria argumentam que essa estrutura competitiva é o que mantém o sucesso do K-pop. “Não podemos ajudar aqueles que receberam uma oportunidade de superação pessoal, mas não conseguiram acompanhar o ritmo dos demais”, disse à AFP em 2021 Oh Chang-seok, empresário do Blitzers.

O equilíbrio de poder entre as gravadoras e as estrelas do K-pop era antes muito desigual, com “contratos escravos” que impunham uma divisão desigual de lucros e vinculavam os artistas por mais de uma década.

Após uma batalha judicial envolvendo o grupo TVXQ, a comissão de comércio justo revisou os contratos padrão, introduzindo em 2009 mudanças que limitam os contratos iniciais a sete anos.

Sem namoros

Os fãs podem se tornar obsessivos, e a indignação com rumores de que suas estrelas favoritas poderiam ter relacionamentos amorosos se tornou uma característica da indústria.

Quando surgiram rumores de que Jung Kook do BTS estava saindo com Winter, integrante do Aespa, os fãs enviaram um caminhão com um outdoor para a sede da gravadora HYBE acusando-o de “traição”.

Karina do Aespa enfrentou problemas semelhantes quando reconheceu seu relacionamento com um ator em 2024, provocando a ira de seus seguidores, que também enviaram um caminhão. “Você não recebe amor suficiente dos seus fãs?”, dizia a mensagem.

Karina ofereceu suas “sinceras desculpas” em uma carta escrita à mão, prometendo que “não os decepcionaria” novamente, e pouco depois o casal terminou.

Outros levaram as coisas a extremos perigosos.

Em 2024, Sunwoo do The Boyz foi agredido quando um fã se escondeu em uma escada de emergência para confrontá-lo. A gravadora do grupo afirmou ter detectado também um dispositivo de rastreamento em seu veículo.

Neste mês, uma mulher brasileira foi acusada de assediar Jung Kook do BTS. Supostamente tocou a campainha de sua casa e deixou — “por amor” — uma carta 23 vezes em um mês.

Kim Seong-sheen, professor de educação em convergência criativa na universidade Hanyang de Seul, culpa a forma como a indústria estruturou a relação entre grupos e seguidores.

“Os fãs passaram a ocupar o papel não de simples consumidores, mas de participantes que investem suas emoções e tempo”, detalhou Kim à AFP.

“A indústria operou durante muito tempo sob a premissa de controlar a vida privada dos ídolos e manter uma ilusão de intimidade para sustentar esse compromisso”, acrescentou.

Cyberbullying

A indústria viu vários suicídios suspeitos, o mais recente em 2023, quando Moonbin, de 25 anos, do grupo ASTRO, foi encontrado morto em sua casa.

Embora os profissionais de saúde mental alertem que raramente há um único fator desencadeante, alguns artistas foram submetidos a intenso cyberbullying e a um duro escrutínio de sua vida pessoal, tanto por parte de seguidores quanto de seus representantes.

Bang Si-hyuk, criador do BTS e presidente da HYBE, questionou em uma entrevista à CNN em 2023 se tais críticas eram “justificáveis”, sugerindo que as condições não são melhores no pop ocidental.

O comentarista cultural Kim Do-hoon apontou que um problema mais profundo está na estrutura hierárquica da indústria entre a gestão e os cantores.

Diferentemente de muitos grupos em outros lugares, as bandas de K-pop são formadas por agências que investem tempo e capital para treiná-las em um sistema vertical. O BTS foi criado da mesma maneira. “É um sistema muito hierárquico que, em sua essência, não mudou com os anos”, confirmou.

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