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Ricardo Waddington retorna ao teatro e a ‘Avenida Brasil’ – 12/04/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Ao sair da Globo, o diretor Ricardo Waddington começou a planejar sua volta ao teatro. Os 40 anos de TV o afastaram do palco, com uma única exceção —a direção da peça “Descalços no Parque”, em 1990, protagonizada por Lídia Brondi, sua ex-mulher, e o ator Thales Pan Chacon.

Chegou a pensar em um espetáculo de Shakespeare ou de Nelson Rodrigues neste retorno. No processo de pesquisa, no entanto, optou pela abordagem de um assunto delicado e relacionado aos jovens: o suicídio.

O trabalho no teatro infantil, no início da carreira, e os anos na direção de “Malhação” o aproximaram do universo juvenil, com uma peculiaridade. Ao liderar a série adolescente da Globo, ele descobriu que grande parte do público era formada por adultos em busca do diálogo com os mais novos, a exemplo do que pode acontecer com a peça que escolheu montar, “#malditos16”.

“Malhação” abordou assuntos como o uso de drogas, o aborto, a Aids, a violência doméstica e o bullying. Temas que estão também em “#malditos16”, que estreia nesta quinta (16) e fica em cartaz até o início de junho no Teatro Faap, em São Paulo.

O texto do dramaturgo espanhol Nando Lopez, com tradução de Flávio Marinho, é inspirado em relatos reais sobre a saúde mental. A trama acompanha quatro jovens que se conhecem em uma instituição psiquiátrica após tentativas de suicídio.

Todos sobrevivem e, anos depois, são chamados pela psiquiatra Violeta —papel de Helena Ranaldi— para participar de um projeto sobre o tema. O reencontro é recheado de memórias, conflitos e reflexões sobre as dificuldades que enfrentam.

“Para voltar a fazer teatro, queria que fosse algo relevante, que não fosse só um exercício estético da minha parte”, diz Waddington.

O texto tenta quebrar o tabu relacionado à abordagem do suicídio, um tema ainda pouco falado e debatido. Na opinião do diretor, não tocar no assunto deixa a questão ainda mais difícil.

“Quando você fala sobre os temas, joga luz e faz com que pessoas que estão passando por um sofrimento profundo tenham como nomear o que estão sentindo. Muitas vezes basta um telefonema para tirar uma pessoa da crise”, afirma.

A partir de pesquisas e de um trabalho terapêutico que realiza com jovens, Lopez criou uma dramaturgia sobre o caminho de sofrimento que leva à tentativa de suicídio.

“Estamos dando voz a um assunto que achamos extremamente relevante. Os números são alarmantes e é um momento importante para tocar em algo que não pode ser mais calado. Precisamos falar sobre a saúde mental dos adolescentes.”

Os tópicos principais de “#malditos16” são o abuso sexual, a violência doméstica, a transexualidade e a anorexia, com personagens com questões particulares e, ao mesmo tempo, comuns a muitos adolescentes. Tudo potencializado pela vida online repleta de ataques e bullying.

Após dirigir 27 novelas, o diretor voltou ao teatro para liderar um elenco que chama de espetacular e que inclui a ex-mulher Helena Ranaldi e o filho Pedro Waddington.

Os dois vêm de outra experiência em família, a peça “O Retorno”, em que um casal vive o luto pela morte do único filho, até ser surpreendido pela volta do menino. No espetáculo de agora, o personagem de Pedro lida com a falta de amor por parte dos pais, que o culpam pela morte do irmão.

“É bem diferente de mim, porque sou muito amado pelos meus pais. Acho que é um tema muito relevante, importante de ser debatido”, diz.

Além deles, o elenco é formado por Sara Vidal, Benjamín, Julia Maez e Matheus Sousa.

Waddington concilia a direção da peça com o retorno à Globo, desta vez em um contrato por obra, para dirigir uma continuação de “Avenida Brasil”, de João Emanuel Carneiro. Os dois trabalharam juntos na novela original, um grande sucesso de 2012, agora na faixa do Vale a Pena Ver de Novo.

A saída da Globo, há três anos, foi planejada, com direito a sessões de análise e plano financeiro estruturado. Waddington queria parar ao completar 60 anos de idade ou 40 de emissora. Atingiu a meta de quatro décadas e passou a dedicar o tempo às viagens, às leituras e à convivência com amigos.

Porém, o desejo de fazer teatro permaneceu e ele resolveu encarar um projeto financiado com recursos próprios. Também não resistiu ao convite para dirigir mais uma novela com Carneiro, chamado de “parceiraço”. Além de “Avenida Brasil”, os dois trabalharam juntos na novela “Favorita” e na série “A Cura”.

Waddington comandou também programas como Globo de Ouro, Por Toda a Minha Vida, Vídeo Show e Amor & Sexo. É responsável por uma das cenas mais ousadas da televisão brasileira: a abertura do programa apresentado pela ex-namorada Fernanda Lima com dançarinos nus, em 2013, na última temporada.

Ao liderar os Estúdios Globo, chegou ao topo da carreira, como parte de uma estratégia da emissora de levar profissionais da área criativa para o setor executivo. Agora, aos 65 anos, volta às novelas com a certeza de que não existe limite de idade para esse tipo de trabalho.

“Há diretores de cinema, de teatro, artistas plásticos”, diz sobre a carreira após os 60 anos. “A dona Fernanda [Montenegro] é o exemplo máximo disso”.

“Eu adoro desafios gigantes. Quem está em uma televisão e faz uma novela das 21h, que fala com 40 milhões de pessoas todos os dias, não pode achar que isso é um peso. Tem que achar que isso é o máximo, é um desafio maravilhoso”, diz, sobre a nova “Avenida Brasil”.

Waddington enxerga a televisão como um espelho que reflete o momento do país, com espaço para avançar em determinados temas, mas não em todos. Acredita que há a possibilidade de levar provocações ao ar, porém, sem agredir o público. “A Marluce [Dias da Silva, ex-diretora geral da Globo] dizia assim: não obrigue o seu espectador a não gostar de você.”

Hoje, na avaliação dele, a cena de nudez de Amor & Sexo não seria adequada. Para o diretor, há atualmente outras urgências e formas de tratar os assuntos relacionados ao sexo, com a TV respeitando os movimentos da sociedade.

Outra mudança está relacionada à forma de assistir novelas, com o acesso do público a várias plataformas e formatos. Há quem assista apenas aos cortes e há a novidade das produções verticais, projetadas para os celulares.

Nesse sentido, o diretor afirma que o remake de “Vale Tudo”, muito comentado nas redes sociais, fez sucesso e foi importante para a TV aberta. “Achei que foi uma experiência importante para avançar.”

Além disso, o diretor cita a velocidade maior das tramas atuais, o que significa uma multiplicação dos capítulos. Para ele, Manuela Dias, a autora de “Vale Tudo”, não fez apenas um remake, mas uma adaptação completa.

“Ela teve um desafio gigante e eu assisti, torcendo para que cada dia fosse melhor, porque o meu filhote estava lá”, diz sobre o personagem de Pedro, Tiago Roitman, neto da vilã Odete.

A direção de “Avenida Brasil 2”, ele diz, será voltada a todas as plataformas e formatos do momento, desde a novela vista na sala de casa até o público do TikTok. “Estou pensando em tudo”, diz Waddington, assertivo —como um diretor.

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