O impacto econômico mais imediato da guerra no Oriente Médio—desencadeada pelos ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã— se dá nos preços de petróleo e gás. As exportações a partir do Golfo Pérsico são essenciais para a atividade global, afetando a produção industrial e o custo de vida em todos os continentes.
À diferença das tensões do ano passado, quando o regime iraniano preservava certa margem de manobra, o ataque atual traz risco existencial a Teerã —que reage com a premissa de sobrevivência e busca alastrar o conflito, atacando países vizinhos exportadores de energia e ameaçando fechar o Estreito de Ormuz.
Por ali passam quase 20% do petróleo consumido no mundo e parcela significativa do gás natural liquefeito (GNL), especialmente do Qatar. O tráfego marítimo já caiu cerca de 90%, e seguradoras cancelaram coberturas de risco de guerra.
A produção no Oriente Médio já sofre com fechamento de refinarias e a decretação de força maior pelo Qatar para suspender parte da produção e dos embarques. Assim, o petróleo do tipo Brent saltou de patamares próximos a US$ 70 para acima de US$ 80 por barril em poucos dias.
Até o final de fevereiro, a economia mundial tinha perspectivas favoráveis, com expansão mais robusta nos Estados Unidos, recuperação na Europa e desempenho sólido em emergentes. A inflação cedia e os bancos centrais em geral indicavam cortes de juros, enquanto os investimentos em inteligência artificial prometem ganhos de produtividade.
A alta dos preços de petróleo e gás natural é capaz de alterar esse quadro. Segundo estimativas, cada US$ 10 adicionais no barril podem adicionar até 0,3 ponto percentual à inflação global.
É fato que, diante de um choque de oferta, os bancos centrais não sobem juros automaticamente enquanto as expectativas de inflação permanecerem ancoradas. Entretanto o cenário para a política monetária ficou mais difícil: a combinação de preços elevados com incerteza geopolítica tende a forçar ao menos um adiamento nos cortes das taxas.
O risco de recessão global ainda não está no centro das preocupações, mas tudo dependerá da duração do conflito e do impacto nas cotações. Altas adicionais, levando o Brent a US$ 100 ou mais, freariam consumo e investimento, especialmente em economias sensíveis à energia.
No Brasil, o quadro é ambíguo. O país é exportador líquido de petróleo e, em tese, beneficia-se do aumento de preços. Há desafios domésticos inescapáveis, porém: se o novo patamar for persistente, a Petrobras terá de repassá-lo ao mercado interno, reacendendo pressões inflacionárias.
Nesse cenário, o Banco Central encontrará maior dificuldade para cortar a Selic na intensidade esperada. O governo também poderá ser tentado a mais medidas de estímulo, com impacto na inflação e nas já depauperadas contas públicas.
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