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Robert Duvall atuava de forma sólida sem ser galã e Rambo – 16/02/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Robert Duvall nunca teve o tipo bastante bonito para ser um galã, nem brutamontes o suficiente para ser um Rambo, ou atraente para ser uma superestrela tipo Marlon Brando. Aliás, Dustin Hoffman acreditou, quando eram alunos de arte dramática, que Duvall seria o novo Marlon Brando.

Não, era um pouco diferente. A calva precoce já não ajudava, mas o ator, morto aos 95 anos neste domingo, também não era de se impor à toa, de pedir closes, de tentar ganhar a cena na marra. Ao contrário, costumava incentivar os colegas a que se destacassem mais.

Mas impunha-se, sim, pela maneira sólida e límpida como compunha seus personagens. Isso é que o transformou, mesmo sendo raramente o ator principal de um filme, em um nome chave da geração da Nova Hollywood, que transformou o cinema dos Estados Unidos entre os anos 1960 e 1970.

Foi como coadjuvante que chamou a atenção dos espectadores. Com jeito um pouco anacrônico, foi capaz de compor militares como o seríssimo major Frank Burns, do anárquico “M.A.S.H.”, de Robert Altman, de 1970. Seríssimo da boca para fora, pois com a bela da tropa, Sally Kellerman, ele sabia se divertir.

Em “Apocalipse Now”, de Francis Ford Coppola, de 1979, ele seria promovido a Tenente-Coronel. Kilgore era seu nome e ele surgia na melhor sequência do filme, para uma sessão de surfe no mar do Vietnã e para espalhar por lá o cheiro das bombas napalm, que soltava com sinistra alegria.

No mesmo ano, em “O Grande Santini”, ele seria novamente promovido. Desta vez a um coronel tão respeitado pelos inimigos por sua audácia no campo de batalha quanto desprezado pelos filhos.

É verdade que foi em outro registro, o de advogado discreto e eficaz de “O Poderoso Chefão” que sua fama se consolidou. Foi também sua primeira indicação para o Oscar. Era Tom Hagen, o filho adotivo da família Corleone, o único não descendente de italianos, portanto um homem entre dois mundos —Itália e Estados Unidos, máfia e lei.

Repetiu a dose em “O Poderoso Chefão 2”, de 1974. E quando chegou a “O Poderoso Chefão 3”, de 1990, se recusou a fazer o papel, considerando mesquinha a oferta dos produtores. Resultado —seu personagem morreu e os fãs da série ainda lamentam o acontecido até hoje, com a morte do ator.

Talvez a Paramount devesse lastimar ainda mais —o “consegliere” que tomou o papel de Duvall só se celebrizou por deixar claro o quanto Tom Hagen era importante para a série.

Duvall receberia seu Oscar, e como melhor ator, por “A Força do Carinho”, de 1983, de Bruce Berestord. Talvez fosse um filme esquecível, não fosse Duvall, aqui um cantor country cuja decadência se confunde com o alcoolismo. Ele se retira, com seu chapéu de texano em punho, e busca cura e redenção na companhia de uma mulher e seu filho.

Com ou sem indicações, Duvall continuou mostrando que era capaz de se adaptar aos papeis mais variados. Foi o juiz do filme “O Juiz”, mas também foi o nazista Adolf Eichmann —num telefilme da TNT de 1996, “O Homem que Capturou Eichmann”— e Josef Stálin em uma produção da HBO de 1992.

Mas, para que ninguém duvide de seu jeito para militar, ainda faria o papel do general Lee, célebre comandante das forças confederadas na Guerra de Secessão, em “Deuses e Generais”, de 2003. Depois de major e coronel, agora era mesmo general. E, o que é melhor, fazendo o papel de um parente, já que ele próprio era descendente de Lee por parte de mãe.

No mais, foi um diretor eventual e mesmo seu filme de maior destaque, “O Apóstolo” (1997) provavelmente teria dificuldade em ser produzido, não fosse ele o ator central. Desde a virada do século a presença de Duvall nas telas tornou-se episódica.

O passado lhe bastava —o Duvall dos anos 1960 a 1980, eventualmente até 1990, era o que todo mundo continuava a gostar de ver, na TV ou no cinema. Há anos optara pela vida em família, retirado do cinema. Era uma lenda viva, muitos disseram. Há certo exagero nisso. A partir de sua morte é que, sim, pode ser uma lembrança que permanece viva como uma lenda.

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