Homem de meia-idade simpático, mas de humor ultrapassado, tenta se reinventar após fim de relacionamento. Nesse processo, descobre um novo jeito de ver sua profissão e influencia outros a viverem de uma forma melhor. Eis o enredo de “Rooster“, que estreou na HBO no último domingo e traz no elenco Steve Carell e Danielle Deadwyler, mas também é o de “Falando a Real” e “Ted Lasso“.
Todas foram criadas por Bill Lawrence, veterano das comédias agridoces (ele está no ar também com o reboot de “Scrubs”). Na escala de otimismo entre as três, “Rooster” fica no meio.
Lawrence tem um talento especial: reunir elencos de muito alto nível que funcionam em harmonia, sem estrelismo nem ladrões de cena, e dar aos atores espaço suficiente para desenvolver seus personagens na direção que acharem melhor. Não raro, muitos acabam como cocriadores das séries ou com uma parceria perene com o roteirista-produtor.
É assim em “Rooster”, comédia curtinha (dez episódios de meia hora) sobre um escritor de romances populares que, para ajudar a filha, uma professora universitária que precisa pôr a vida de volta no prumo, se vê repentinamente como professor-visitante em uma universidade prestigiosa, às voltas com a geração Z e suas novas e minuciosas regras de comportamento.
Além de Carell (de “The Office“) e Deadwyler (de “Estação Onze”), caras conhecidas da turma de Lawrence surgem em cena: John C. McGinley (de “Scrubs“) como o reitor obcecado por fitness, Phil Dunster (de “Ted Lasso”) como professor e ex-genro pernóstico do protagonista, Alan Ruck (“Spin City”) como um colega sem limites de autoestima. Zach Braff, o J.D. de “Scrubs”, dirige parte dos episódios.
Um dos pilares da série é a dificuldade de Carell, no papel-título (Rooster é o herói heterotop de seus livros, uma espécie de alter ego turbinado do autor, Greg Russo), entender os novos códigos comportamentais.
Pululam piadas com o excesso de coisas “politicamente corretas”, apontando exageros sem contudo diminuir a preocupação com o respeito ao outro (comediantes que acham que não dá para fazer humor sem isso poderiam aprender uma ou duas coisas aqui —e sem nenhum sermão).
Após ter passado tanto tempo casado e depois remoendo o divórcio com uma mulher mais bem-sucedida do que ele, Greg/Rooster também tropeça ao lidar com o interesse de uma colega acadêmica (Deadwyler). Aqui, vale uma nota sobre a carreira de Carell, um comediante de grande envergadura dramática que depois de décadas de papéis como sujeitos pouco atraentes virou um insuspeito galã.
Esta é a primeira vez que o ator trabalha com Lawrence. Os dois, porém, foram contemporâneos na Second City, lendária trupe de improviso de Chicago de onde saíram alguns dos nomes mais notáveis da comédia desde os anos 1960 até hoje.
A amizade, aliás, é o outro pilar da série —tanto a do autor com sua equipe como a dos personagens, sempre dispostos a ajudar uns aos outros.
Só não espere grandes arroubos existenciais ou provocações mais incisivas. As séries de Lawrence, afinal, são para os espectadores se sentirem bem, uma espécie de abracinho de conforto sem ambição maior que essa. Não que isso seja um problema.
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