Se você já não aguenta mais gente patrulhando cotidianamente a sua opinião, exigindo-lhe um posicionamento moral explícito sobre qualquer coisa como condição para decidir se você presta ou não, se já não suporta militante apertando a sua mente e forçando a sua mão, você não está sozinho. Há muitos brasileiros como você —e me incluo entre eles— sentindo-se como a bola de um pinball político alucinado, arremessada para lá e para cá, à procura de uma saída em meio a tanto barulho e histeria.
Reconhece o ambiente? Ele impõe, semana após semana, uma rotina de julgamentos morais, como se fosse preciso decidir o tempo todo quem merece crédito e quem não na vida e na política. Ele transforma tudo —ideias, pensamentos, atitudes e comportamentos, seus e dos outros— em questão política, sujeita à vigilância e à punição segundo critérios ideológicos. Ele exige que você tenha —e exiba— uma opinião política (frise-se o adjetivo “política”) sobre quase tudo: o estreito de Hormuz, projetos de lei sobre antissemitismo e antimisoginia, o powerpoint da GloboNews, uma declaração de Trump sobre a mulher de Macron, a não convocação de Neymar ou de Endrick, ou até se, afinal, “lá ele!” é uma expressão homofóbica .
O mais curioso é que o remédio mais eficiente para enfrentar essa sensação é um clássico do Iluminismo e vem na forma de um imperativo: atreva-se a pensar com a sua própria cabeça. “Sapere aude”. Tenha a audácia de pensar; ouse servir-se do seu próprio entendimento.
Isso pode significar muitas coisas nos dias que correm. Um dos seus significados é que ninguém manda em você, quer dizer, no seu juízo, no seu modo de ver as coisas. Nem o seu círculo de afinidade social, nem o seu grupo de pertencimento ideológico. Divergir e desafiar valores e pontos de vista de quem está no “outro lado” é fácil, e todo mundo faz isso. Emancipação intelectual de verdade é ter a ousadia de resistir ao soft power dos “nossos”, é não aderir automaticamente, é se recusar a substituir o próprio julgamento pela voz do próprio rebanho. Há um custo —grupos punem dissidentes, desafiantes e até hesitantes com isolamento. Dane-se! Esse é o preço a pagar para ser o capitão própria alma, senhor das próprias ideias.
Outra decorrência da máxima iluminista é a liberdade de rediscutir consensos, reabrir decisões ideológicas que os grupos dão por encerradas, reexaminar premissas e pressupostos já adotados. Isso é o que significa recusar os dogmas do grupo e as suas bíblias particulares, assim como se recusar a confundir afinidades ideológicas, que é uma coisa normal, com conversão sectária e suicídio intelectual. Não conceda a autoridades, livros e bulas papais do seu campo o direito de decidir o que você deve considerar certo ou errado, discutível ou intolerável. Mantenha esse direito como uma prerrogativa política e humana pessoal.
Em um momento em que os campos políticos, tantos e tão fragmentados, reforçam os apelos por coesão grupal e por hostilidade contra os inimigos externos, tenha a liberdade de escolher contra o que lutar, se preciso, e por que razão o faria, se necessário. Contra a pressa do grupo por movimentos de manada, retarde o seu julgamento; contra a pressão por um incessante ativismo de guerrilha, suspenda por um tempo o seu julgamento até que as coisas fiquem mais claras; contra as simplificações de quem vê tudo em preto e branco, assuma a atitude mais rebelde de todas: faça distinções e aceite paradoxos.
Você vai descobrir como é libertador, por exemplo, apoiar um princípio —sei lá, a condenação da misoginia e do antissemitismo— e, ao mesmo tempo, reprovar a solução proposta com a criminalização. Ou pedir evidências quando todos estão entronados em certezas, demandar que sejam demonstradas crenças que os grupos consideram sagradas, desconfiar de soluções fáceis para problemas difíceis, pensar a contrapelo quando todos buscam nos consensos grupais a estima de que tanto precisam, dispor-se a ouvir os outros lados e a entender as suas razões, mesmo quando não concorda com elas.
Talvez você fique surpreso ao notar que um tal individualismo —que não é isolamento, mas autonomia de juízo— pode ser, paradoxalmente, mais democrático que os coletivismos que anulam a liberdade de pensar e dissolvem a autonomia do pensamento individual nas obrigações de lealdade e coesão grupal. Mas é isso mesmo. A voz do rebanho sempre serviu melhor a outros regimes; a democracia depende, desde sempre, de indivíduos capazes de pensar com liberdade e independência.
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