Salvador não ficou menos negra, ficou apenas sem o conforto da frase “a cidade mais preta fora da África”, repetida por anos como se fosse verdade imutável. O Censo 2022 trocou o mito pelos fatos: em números totais, a capital baiana reúne 2,011 milhões de pessoas pretas ou pardas, atrás de São Paulo e Rio; em números proporcionais, esses mesmos 2,011 milhões representam 83,2% da população, mas deixam a cidade apenas na 484ª posição entre os municípios brasileiros.
O problema, porém, não é só estatístico e narrativo —é político e econômico. Durante muito tempo, o peso simbólico desse slogan ajudou a sustentar uma economia cultural em que a imagem negra de Salvador virou ativo de mercado, enquanto o comando, os contratos e a parte mais alta do lucro seguiram concentrados em mãos brancas e aristocratas.
Isso aparece, por exemplo, quando cultura e turismo passam a operar sob a mesma lógica. Em Salvador, onde as duas áreas seguem reunidas numa mesma secretaria municipal, essa fusão frequentemente transforma a cultura em vitrine para quem chega de fora. A cidade vende ancestralidade, festa e experiência, mas nem sempre organiza essa agenda a partir de quem vive nela. O risco é produzir eventos cada vez mais eficazes para o visitante e cada vez menos estruturantes para o soteropolitano.
Projetos criados para fortalecer a cultura afro da cidade acabam, muitas vezes, mantendo empresas brancas e pessoas não negras no centro das decisões, enquanto quem já constrói esse campo há anos fica fora da formulação e da circulação mais ampla dos recursos. No fim, a cidade preta segue convocada para executar, performar e legitimar, mas não necessariamente para discutir e decidir.
Nos grandes festivais e eventos, a distorção se repete quando a cultura negra organiza a rua, sustenta o repertório e produz o imaginário que vende Salvador para o Brasil e para o mundo, mas os maiores ganhos seguem muitas vezes em estruturas empresariais brancas e em circuitos externos, ligados ao eixo mais rico do país. A “cidade mais preta” continua sendo motor; a direção do negócio, nem sempre.
Salvador Capital Afro, lançado em 2022, exemplifica com clareza esse problema antigo da cidade. No Rolê Afro daquele ano, por exemplo, empresas italianas como Target Euro e Artès venceram editais centrais; a política foi conduzida pelo Prodetur com pessoas não negras à frente; agentes históricos do afroturismo ficaram fora das mesas de formulação; reportagens da mídia negra foram usadas sem crédito nem remuneração. E o próprio festival, realizado naquele ano, deixou de fora vozes críticas do setor, enquanto privilegiava negócios mais próximos da vitrine do que do trabalho de base.
O embranquecimento dessa pauta não começou agora. Um exemplo histórico disso é a própria axé music, talvez sua expressão mais evidente. Lastreado na cultura afro-baiana, o movimento ajudou a enriquecer e projetar, com mais força, artistas e estruturas brancas de mercado. Não se trata de apontar culpados individuais, mas de reconhecer um padrão.
Talvez a utilidade real desse debate esteja aí. Menos apego ao slogan, mais atenção à estrutura. Salvador não precisa de um título fixo para seguir central; precisa enfrentar o fato de que sua cultura negra produz riqueza há muito tempo, mas essa riqueza ainda não retorna, na mesma escala, para quem a cria. O ponto agora não é defender o mito, é discutir quem ganha com ele.
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