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Samba é a música preta brasileira, diz cantor Thiaguinho – 26/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Aos 20 e poucos anos de idade, Thiago André Barbosa largou a pequena Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, e subiu num ônibus em direção à capital paulista. “Tinha pouquíssimos amigos negros e a vivência que eu tinha com negros na minha vida era a minha família”, ele diz. “São Paulo me ensinou muito sobre negritude, me adicionou muito enquanto cultura preta na música.”

Hoje conhecido no país inteiro como Thiaguinho, o cantor agradece à cidade grande em seu mais novo álbum, “Bem Black”. O disco, em dois volumes, é uma festa de balanço com novidades e clássicos revisitados do cancioneiro nacional, como “Primavera”, com participações de nomes de peso da música negra brasileira como Sandra de Sá, Negra Li e Sampa Crew.

Tudo segue na esteira do pagode. Ao contrário de outros álbuns do cantor, porém, este tem protagonismo de metais, melodias suingadas e arranjos que passeiam entre R&B, funk e soul —aos moldes dos bailes que gestaram o próprio pagode da década de 1990 na cidade. “É algo que sempre gostei de fazer no meu samba, misturar meu samba com a música preta do mundo —porque o samba é a música preta brasileira.”

Não por acaso o disco foi gravado no Club Homs, casa na avenida Paulista que sediou importantes bailes para a música negra de São Paulo nas décadas de 1980 e 1990 —de festas como a Chic Show aos primeiros encontros de hip-hop da cidade. “Eu tinha muita vontade de viver isso, um momento de auto-afirmação, de poder e de beleza do negro no Brasil”, diz o cantor.

O resultado é um disco equilibrado que dá vazão ao primor técnico do músico e sua criatividade como intérprete. A versão de “Joia Rara”, ao lado do compositor e cantor Walmir Borges, é uma nova pérola do samba-rock, e seu resgate de “Primavera” e “Coleção” dá novo fôlego aos clássicos. Entre as autorais, a colaboração com Rodriguinho e Gaab, pai e filho, é um destaque aos moldes do pagode da fase mais R&B do grupo Os Travessos.

Quando as letras não brilham —em alguns casos, elas soam como reedições de outros sucessos do cantor—, a produção segura com consistência. A faixa-título, por exemplo, é uma amostra nítida de um pagode enquanto samba moderno, cosmopolita, negro. Muito disso é fruto da parceria de décadas entre Thiaguinho e o produtor Wilson Prateado, trazida a um novo patamar no disco.

“Ele é fruto desse movimento que eu quis trazer para o ‘Bem Black’, ele frequentou esses bailes”, diz Thiaguinho, que trabalha com o produtor desde quando era do Exaltasamba —uma vontade que antecede sua época na banda. “Para mim, ele é o maior produtor de samba e pagode que temos, ele ajuda a construir esse movimento do pagode e colabora no disco ao lado do Gabriel Barriga, meu parceiro de composição.”

A dupla está por trás de canções como “Caraca, Muleke!” e “Sou o Cara pra Você”, faixas que transformaram Thiaguinho em maior nome da sua geração do pagode —um artista que pavimentou a ascensão contemporânea do gênero entre os mais ouvidos do país. “O pagode é muito rico e faço parte disso”, diz ele. “Sempre vai existir pagode, sempre vai ter um grupo tocando sábado à tarde numa feijoada.”

Espremido entre a indústria do sertanejo e a popularidade do funk, o pagode, ao menos no nome, segue vivo também na fusão com os grandes. Os pagodeiros do Menos É Mais chegaram ao topo das plataformas no ano passado com “P de Pecado“, faixa em parceria com a sertaneja Simone Mendes que pouco lembra o som de Thiaguinho em “Bem Black”.

“O samba sempre vai ter seu lugar independentemente de quem estiver no protagonismo, o samba sempre vai ter sua força, e enxergo a novidade com bons olhos”, diz Thiaguinho. “Não tem como desatrelar o samba da raça negra, por tudo o que a raça negra passou no nosso país, então é muito bonito quando o samba consegue mostrar toda a sua potência.”

Nos últimos dez anos, Thiaguinho rodou o Brasil a bordo do “Tardezinha“. Misto de discos ao vivo com roda de samba gigante, o projeto se tornou referência no gênero entre modelos replicados e feitos únicos de seu astro —o espetáculo registrou faturamento na casa das centenas de milhões de reais.

O projeto foi outro tijolo na fundação do artista como nome incontornável do pagode brasileiro. “Tenho 43 anos, não sou mais nenhum moleque”, diz o artista, que enfrentou crises de burnout nos últimos anos. “Eu tinha de me preocupar com vários aspectos, tinha de estar muito bem da cabeça.”

Na esteira do sucesso, Thiaguinho chegou a levar a turnê para Angola e estrear a música de abertura da atual novela das nove. Na faixa, de autoria de Serginho Meriti e Rodrigo Leite, Thiaguinho canta ao lado de Negra Li sobre Deus num samba que abre com toques de ijexá, ritmo afro-brasileiro vinculado ao candomblé.

“Tocar em Angola foi como trazer o samba de volta para casa. O pagode é uma música de matriz africana e tem essa função. Entra no rádio, na TV, tem toda a visibilidade e continua sendo África.”

Além da música, Thiaguinho virou a chave do gênero ao se tornar um dos principais empresários do pagode brasileiro. A empresa que fundou para administrar sua carreira tem faturamentos na casa dos bilhões, valores que não se refletem em excentricidades de alguns magnatas da indústria —o cantor é comedido.

No palco e no estúdio, a história é outra. No último show de celebração de dez anos da “Tardezinha”, o cantor ficou sete horas no palco. Neste ano ele sai em turnê pelo álbum “Bem Black”, mas não esconde um possível retorno do maior espetáculo de pagode que já passou pelo país. “O samba é ecumênico, a roda de samba está sempre de braços abertos para receber a todos.”

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