Na maioria das vezes, o objetivo do monólogo de abertura do “Saturday Night Live” é simples —ele define o tom, dá ao apresentador famoso algumas piadas fáceis e prepara o público para rir dos esquetes que se seguem.
Mas, em 21 de março, Tina Fey, a primeira apresentadora de uma nova versão britânica do programa, tinha uma tarefa diferente: justificar a existência do programa. “Por que fazer uma versão britânica do ‘SNL’?”, perguntou a escritora e atriz americana em voz alta, repetindo uma questão que muitos têm feito desde que o projeto foi anunciado. “Bem, como tantas outras grandes operações americanas hoje em dia, ninguém realmente sabe por quê.”
Na verdade, os executivos e produtores da Sky, a rede de televisão que abriga o “SNL UK”, vinham ponderando sobre isso há cerca de cinco anos. Eles achavam que havia bons motivos para lançar o programa meio século depois de sua estreia do outro lado do Atlântico.
O primeiro era que, em tempos sombrios, as pessoas precisam de um alívio. A comédia é uma válvula de escape —e há muita tensão acumulada devido à guerra, à instabilidade econômica e à polarização política.
“Estamos num momento em que precisamos rir mais do que nunca”, afirma Philip Edgar-Jones, diretor executivo de conteúdo original não roteirizado da Sky. “A comédia pode fazer um trabalho brilhante —e eles fazem isso brilhantemente na América— de [dizer] a verdade ao poder.”
A edição americana do programa geralmente começa com uma esquete sobre alguma coisa imprudente que o presidente disse ou fez; o primeiro esquete da versão do Reino Unido retratou Keir Starmer, o primeiro-ministro britânico, como um covarde que muda de opinião constantemente, apavorado em falar com o homem na Casa Branca. (Donald Trump, encantado por ser retratado como um valentão, compartilhou isso nas redes sociais.)
O programa em breve abordará a família real (um tema rico para sátira) e a cultura britânica de forma mais ampla. Um dos melhores esquetes da estreia imaginou uma experiência imersiva de “Paddington”, apresentando não um urso fofinho que adora marmelada, mas uma besta sedenta de sangue.
Embora o “SNL” adapte um formato existente, não há nada parecido na televisão britânica atualmente. O humor de esquetes na TV definhou como um papagaio morto na última década: acabaram-se os dias em que você podia escolher entre “Fry and Laurie” e “French and Saunders” ou “Harry and Paul” e “Armstrong and Miller”. (Uma exceção notável é “Mitchell and Webb Are Not Helping”, que no ano passado reuniu dois favoritos da comédia britânica e se tornou o maior sucesso de estreia do Channel 4 desde 2018.)
Sejam programas de painel ou sitcoms, a comédia raramente é transmitida ao vivo hoje em dia, o que significa que o “SNL UK” tem uma energia frenética própria —o apelo de assisti-lo na TV é a perspectiva de ver as coisas darem errado em tempo real.
E, após a transmissão, o programa pode alcançar um público entusiasmado online. Vídeos com a hashtag #skit viralizam no Instagram e no TikTok. Postagens relacionadas a esquetes de comédia tiveram 4,5 bilhões de impressões no Reddit, YouTube e X entre meados de fevereiro e meados de março, de acordo com a Sprout Social, uma empresa de análise de dados.
O “SNL UK” conta com diversas estrelas das mídias sociais entre seus roteiristas e elenco, incluindo Omar Badawy, Lorna Rose Treen e Al Nash; esquetes da estreia, como um que imagina britânicos famosos em um jantar, já acumularam centenas de milhares de visualizações. A esperança, diz Edgar-Jones, é produzir material que “incendeie a internet no dia seguinte”, no Reino Unido e em outros países.
O primeiro episódio do “SNL UK” foi irregular. Mas tem a chance de cultivar a próxima geração de comediantes britânicos, assim como a versão americana lançou as carreiras de inúmeros atores e roteiristas do país que agora são mundialmente famosos. (A escolha de Fey como apresentadora reforçou esse ponto.)
O público pode permanecer cético por enquanto; o programa precisará acertar mais nas piadas. Mas, se viralizar nas redes sociais e conquistar um público fiel ao vivo, a pergunta de Fey terá sido respondida.
Texto de The Economist publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com