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Seguro rural cai 76% no Brasil em cinco anos – 08/04/2026 – Economia

by Silas Câmara

Num intervalo de apenas cinco anos, despencou a área de lavouras protegidas por seguro rural no país, e a arrecadação do setor, somente em 2025, recuou R$ 1,3 bilhão.

Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (8) no evento Diálogo Setorial: Seguros, Crédito e Agronegócio, na sede da CNM (Confederação Nacional de Municípios), em Brasília, organizado por CNSeg (Confederação Nacional das Seguradoras), Abag (Associação Brasileira do Agronegócio) e Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento).

Em 2021, o país tinha 13,7 milhões de hectares de área plantada segurada, número que recuou para apenas 3,2 milhões de hectares no ano passado, o que representa queda de 76,64%. Mas, além da redução de área, 2025 marcou um ano de retração relevante nos seguros rurais, com queda de 8,8% na arrecadação, que passou de R$ 14,2 bilhões para R$ 12,9 bilhões.

Esse cenário de redução da área segurada ocorre na contramão da área plantada, que passou de 83,9 milhões de hectares, em 2021, para 97,8 milhões, no ano passado.

A queda é, na avaliação do setor, resultado da redução dos recursos de subvenção ao prêmio do seguro rural, aumento do custo das apólices e ao ambiente de maior incerteza e pressão financeira no campo, que fez muitos produtores priorizarem liquidez no curto prazo. Isso em meio ao avanço dos problemas climáticos nas lavouras. Segundo a CNSeg, 95% das apólices são feitas por pequenos e médios produtores rurais.

“O ponto mais sensível é que essa retração ocorre justamente em um contexto de aumento da frequência de eventos climáticos extremos, o que amplia a exposição ao risco e fragiliza a estabilidade das cadeias produtivas”, afirmou Renato Buranello, vice-presidente da Abag.

Além do clima, que causou problemas severos nos últimos anos nas lavouras do Rio Grande do Sul, por exemplo, o cenário internacional, marcado por guerras e tensões geopolíticas com impactos sobre energia e insumos estratégicos, combinado a um ambiente doméstico de crédito restritivo e incerteza econômica, impõe riscos concretos à capacidade produtiva, segundo a Abag.

Na abertura do evento, o presidente da CNSeg, Dyogo Oliveira, ex-ministro do Planejamento no governo de Michel Temer, afirmou que é necessário corrigir distorções nos financiamentos, e citou que enquanto o Plano Safra tem cifras que ultrapassam R$ 600 bilhões, o valor para seguros é de pouco mais de R$ 900 milhões.

“Nos Estados Unidos, 90% da área plantada tem seguro, na Europa tem modelos muito interessantes também, na França, na Espanha, que estão resolvendo o problema. Aqui a gente tem tido uma miopia do governo em relação a isso. Para economizar R$ 300 milhões, 400 milhões no seguro rural, estão gastando bilhões na renegociação de dívidas de produtores”, afirmou.

Disse ainda que os produtores brasileiros já carregam duas ou três parcelas de renegociações de dívidas e que no custo do crédito já estão embutidas a inadimplência, as renegociações e o clima.

À Folha o presidente da CNSeg afirmou que a área segurada representa somente 3,3% da área plantada no país e que, quando há redução de apoio à sua contratação, há consequentemente menor adesão e maior exposição do campo aos riscos.

“Alguns fatores que impactaram a performance do produto estão ligados à menor previsibilidade da subvenção ao prêmio, além de restrições orçamentárias e de um ambiente climático cada vez mais adverso.”

A expectativa inicial para este ano era de crescimento de 2,3% no setor, mas a estimativa foi atualizada para uma redução prevista de 3,9%, conforme o executivo.

A senadora e ex-ministra (Agricultura) Tereza Cristina (PP), que participou do evento, disse que o seguro precisa entrar na cultura do brasileiro. “No agro, em vez de andarmos para a frente, estamos andando para trás […] A agricultura brasileira não pode ficar dependendo de uma discussão como essa, pontual, todos os anos”, afirmou.

De acordo com ela, caso os problemas envolvendo o seguro rural sejam resolvidos, os ligados ao crédito também serão.

“Com as mudanças climáticas aí à nossa porta, os problemas de crédito, à nossa porta, as exigências de meio ambiente, as exigências trabalhistas, que são cada vez mais rígidas, estressam mais o produtor rural, precisamos de políticas públicas, e o seguro está hoje como a principal.”

O objetivo do evento foi debater caminhos para apoiar o agronegócio com soluções de crédito e proteção, com foco no fortalecimento do seguro rural, ampliação de instrumentos de financiamento e integração de iniciativas entre entidades setoriais e mercados.

“O crescimento do agro brasileiro passa, necessariamente, pelo fortalecimento da sua infraestrutura financeira e isso inclui ampliar cobertura securitária, diversificar funding, melhorar o acesso ao crédito, gestão de riscos e governança no âmbito da produção rural”, disse Buranello.

FUTURO DE SELETIVIDADE

Para o próximo ano-safra, a Abag avalia que o ciclo deve seguir marcado por um cenário de maior seletividade no crédito e custos financeiros elevados, o que exige do produtor rural maior eficiência na gestão e planejamento.

A expectativa é de crescimento da produção em ritmo mais moderado, mas ainda assim impulsionada por tecnologia, inovação e práticas mais sustentáveis.

Para o Plano Safra, a associação afirmou ter expectativa de que seja “robusto, previsível e alinhado à realidade do custo de capital no país”.

Em meio a tudo isso, a perspectiva é de uma retomada gradual nos seguros rurais condicionada a avanços estruturais, como a previsibilidade e recomposição da subvenção, a integração entre crédito e seguro e a inovação.

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