Na mitologia grega, Narciso se achava tão bonito que, apaixonado pela própria imagem, definhou até a morte na beira de um lago por não conseguir parar de olhar o próprio reflexo. Apesar do nome, o Narciso que protagoniza o novo filme de Jeferson De não gosta nem um pouco de como é.
Menino negro órfão, esse Narciso, interpretado por Arthur Ferreira, é devolvido sem explicação pelos pais adotivos logo no começo do longa. A casa que o abriga é de Carmem, interpretada por Ju Colombo, que cria outros garotos do bairro sem pai nem mãe.
Quando aparece um gênio e concede um desejo a Narciso, ele pede por uma família rica e branca, por quem ele será visto como branco —outras pessoas negras, porém, ainda conseguem ver a real cor de sua pele. O feitiço se quebra se o menino olhar o próprio reflexo.
“O mito grego é o menino que se ama e admira a sua beleza. A realidade da criança negra brasileira é outra. É da rejeição e da negação de quem somos”, diz De, o diretor, por videochamada. “É um filme com vários pretos, em que ninguém morre, ninguém toma tiro ou esculacho.”
Depois que Narciso faz o pedido ao gênio, vivido por Seu Jorge, ele acorda em uma mansão. Seus pais são brancos e ricos, mas emocionalmente distantes —e o proíbem de ultrapassar os limites da propriedade, por precaução. O filme fica em preto e branco, para reforçar que o menino está vivendo uma espécie de realidade paralela.
“Narciso” é o sexto longa de De e estreia em um momento áureo para o cinema brasileiro, pouco depois da passagem de “O Agente Secreto” pelo Oscar. Em 2000, ao lado de outros cineastas, De elaborou o “Dogma Feijoada”, manifesto que estabelecia sete regras para um cinema negro autêntico e sem estereótipos Algumas das normas incluíam que os filmes deveriam ser dirigidos e protagonizados por pretos, além de evitar heróis ou bandidos.
Um quarto de século depois, De ainda sente que é uma exceção. “Conseguimos contar nos dedos de uma mão quantos filmes de diretores negros conseguem ir para o shopping”, diz, sobre a exibição em grandes salas comerciais. O diretor é o responsável pela aguardada adaptação para o cinema de “Quarto de Despejo”, livro de Carolina Maria de Jesus, previsto para estrear ainda neste ano.
Seu Jorge concorda. “Estamos nas telas, mas não na mesma intensidade, sem estar na condição de brutalizado. Quando estamos em um filme em que não damos ou levamos um tiro, estamos no caminho de um ‘Ainda Estou Aqui’, de certa forma”, diz o ator. Ele se refere ao longa de Walter Salles estrelado por Fernanda Torres que, no ano passado, venceu o primeiro Oscar do Brasil.
Apesar de se passar durante a ditadura militar, a narrativa explora mais o impacto emocional da repressão em membros de uma família, mais do que expor as torturas do período, por exemplo.
Seu Jorge fala com propriedade. Afinal, ele viveu Carlos Marighella no filme dirigido por Wagner Moura sobre o revolucionário brasileiro, assassinado pelos militares, que não economizou em cenas violentas para registrar a brutalidade do governo autoritário.
Em “Narciso”, a violência é silenciosa. O menino se sente rejeitado e anda quieto pela casa de Carmen antes do gênio aparecer. Além de cuidar do lar, ela cozinha para outros três —Narciso, Alexandre, já na adolescência, e Joaquim, um homem de meia-idade, que no passado também ajudou a criar.
Carmen, talvez a personagem mais complexa do filme, não é retratada como heroína. Há um cansaço notório no comportamento da provedora. “O conflito nos humaniza. É um tormento para uma mulher preta criar meninos, porque ela sabe que eles podem não vingar, podem morrer a qualquer momento”, diz Colombo. “Essas camadas são trazidas com silêncio e expressividade.”