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Silêncio e inação são agravantes da crise climática – 14/03/2026 – Candido Bracher

by Silas Câmara

Em maio de 1968, na Sorbonne, em Paris, um manifestante irrompe na sala da aula de geometria e dirige-se aos alunos: “Como vocês podem ficar aqui, aprendendo essa ciência burguesa, enquanto o futuro se decide nas ruas!?”. O professor pede ao jovem que se sente por três minutos apenas. Vai à lousa, escreve umas poucas fórmulas e oferece o giz ao manifestante dizendo: “Essa é a demonstração burguesa do Teorema de Pitágoras; por favor, escreva a demonstração socialista”.

Essa anedota foi contada pelo jovem e carismático professor de geometria do Colégio Santa Cruz, Astor, no início dos anos 1970. Lembrei-me dela recentemente ao ler uma entrevista do presidente do IPCC —o painel intergovernamental de mudanças climáticas— em que ele afirma: “São a química e a física que determinam que é necessário reduzir a zero as emissões líquidas [de gases de efeito estufa] se desejamos conter o aquecimento global; e isso não é uma escolha política”.

Assim como o Teorema de Pitágoras não é burguês, tampouco a ciência climática é de esquerda. Não há regime político capaz de alterar a evidência física de que o aumento da concentração de CO2 no ar provoca o aquecimento da atmosfera.

O que causa espanto não é ser necessário ao presidente do IPCC afirmar essa obviedade, afinal teorias conspiratórias, mesmo as mais absurdas, são abundantes e precisam ser confrontadas, especialmente em situações de polarização. O que realmente choca é constatar a precariedade do debate global sobre a forma e o ritmo em que as emissões devem ser reduzidas.

Pior que isso é verificar que o assunto vai se tornando “fora de moda”; ficando progressivamente restrito a um grupo de “partisans” que enfrenta dificuldades crescentes em capturar a atenção do establishment político e econômico. O tema vai se tornando desagradável e socialmente tóxico. Uma pessoa educada faria melhor em evitar o assunto, para poupar constrangimento a seus interlocutores.

Não se trata mais apenas de negacionismo; trata-se de aversão.

Evidência clara dessa evolução é a afirmação do presidente mundial da Nestlé, em recente entrevista ao Financial Times: “Se você pensar nisso em retrospecto, cinco ou três anos atrás, em reuniões com investidores, surgiam muitas perguntas sobre sustentabilidade. De alguma forma, nos EUA, isso simplesmente saiu completamente de pauta. Em todas as reuniões com investidores das quais participei, ninguém pergunta —ninguém mesmo, talvez um— sobre sustentabilidade”.

Talvez o sinal mais claro da tendência seja o surgimento do neologismo “greenshushing” que descreve a nova postura das empresas de silenciar sobre as suas iniciativas “verdes”, para não atrair oposição de governantes e investidores.

Como explicar essa negligência coletiva em reagir a uma ameaça cujas evidências são cada vez mais claras?

Já escrevi outras vezes sobre as diversas formas como a indústria e os países produtores de combustíveis fósseis sabotam sistematicamente os esforços de articulação de uma estratégia global para o enfrentamento do problema. Continuo acreditando firmemente nisso, mas as evidências crescentes do desinteresse coletivo no assunto levam-me a pensar que devemos buscar a explicação também em nós mesmos, na nossa própria resistência a reconhecer uma ameaça, especialmente uma que requeira nossa reação.

Um colega de faculdade certa vez resumiu situações como essa, em uma frase simples e incômoda: “chato não é a porta trancada; chato é a chave por dentro”.

Há um conforto inegável no esquecimento do perigo, que só se sustenta através do silêncio coletivo. É a busca da preservação desse conforto que nos leva a reagir contra quem previne, ou nos convoca à ação. A mentira coletivamente compartilhada vai se tornando verdade e requer o silenciamento dos alertas, seguindo a recomendação da mãe do Bambi para o filho, no desenho da Disney: “Se você não tem nada agradável a dizer, então não diga nada”.

Esse comportamento que pode parecer apenas uma atitude psicológica difusa já tem produzido consequências graves e de difícil reversão. Há poucas semanas, os EUA revogaram o fundamento legal que permite ao Estado regular emissões de veículos e indústrias.

Fizeram-no de tal forma que —em a medida sendo confirmada pela Suprema Corte de maioria conservadora— um novo presidente terá grandes dificuldades em recuperar essa capacidade de ação. Além disso —em um gesto que parece destinado a humilhar os opositores—, determinaram que o Departamento de Defesa passe a adquirir energia gerada a carvão.

Certamente não será esta a primeira vez na história em que há uma cegueira deliberada coletiva, um “me engana que eu gosto” global. Nos anos 1930, na Europa a crença fantasiosa de que a Liga das Nações garantiria a permanência da paz manteve-se inabalável, mesmo diante das evidências gritantes do rearmamento alemão. Não atribuo essa crença à ingenuidade dos atores, mas sim à sua conveniência, na medida em que permitia o luxo da inação.

Um excelente exemplo contemporâneo foi oferecido pelo primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, em seu admirável discurso em Davos. Diante de líderes globais ansiosos com a turbulência política e econômica dos dias atuais, Carney denunciou a acomodação dos países médios (basicamente todos os economicamente relevantes menos EUA, China e Rússia) à ilusão da continuidade de uma ordem multilateral baseada em regras (garantidas por órgãos internacionais como a OMC, FMI e ONU), quando essa ordem já se tornou obsoleta e ineficaz e é reiteradamente desrespeitada pelas nações mais poderosas.

Para ilustrar sua tese, Carney toma emprestada uma anedota do dissidente tcheco (e depois presidente) Vaclav Havel: todas as manhãs, um pequeno lojista pendurava na sua fachada uma frase “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”. Ele não acreditava naquilo; ninguém acreditava mais. Mas ele continua ostentando a placa, para evitar problemas; e assim fazem todos os lojistas. Desse modo o regime persiste, através da participação de pessoas comuns em rituais que intimamente sabem ser falsos.

Convém pensarmos se não nos estaremos comportando como o pequeno lojista.

O aquecimento global não avança apenas porque forças conservadoras de direita negam a realidade, nem porque interesses econômicos imediatistas falam mais alto. Ele avança porque aceitamos viver uma mentira conveniente —e porque aprendemos a chamar esse autoengano de prudência.


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