Home » Sofia Borges aborda a representação na arte em exposição – 05/03/2026 – Ilustrada

Sofia Borges aborda a representação na arte em exposição – 05/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Fotografias de fotografias de máscaras gregas se misturam a fotografias de fotografias de desenhos de microrganismos e fotografias de fotografias de esculturas do artista francês Edgar Degas. Num processo de escavação da imagem, a artista brasileira Sofia Borges traz o seu ateliê para o espaço expositivo e explora os limites da representação e da própria vida em sua exposição “Ateliê, Objeto Mistério”, na Central Galeria, no centro de São Paulo.

Diante do convite para realizar uma individual, a proposta de Sofia foi outra: deslocar seu ateliê, que estava saindo de um galpão, para a galeria. O resultado é uma ocupação em fluxo. “Tudo é meu ateliê”, diz Borges, que vê a mostra como o lugar da pesquisa, visível não apenas nas obras, mas em todo o mobiliário do ateliê, “na sujeira, no feio, no bonito”.

Como parte desse ateliê em fluxo, estão fotografias feitas em museus —de arte, arqueologia, zoologia, paleontologia—, além da pesquisa em torno das esculturas de Edgar Degas, desenvolvida a partir de um convite do curador Adriano Pedrosa e inicialmente expostas em “Degas”, exposição realizada no Masp em 2020.

O interesse, porém, não está na obra isolada, mas na condição museológica do objeto. “Eu fotografei museu, museu zoológico, centro de paleontologia, centro de arqueologia, ruína, fóssil. São esses objetos que representam uma coisa muito maior. Por exemplo, um camelo no museu representa a si próprio, mas também a todos os da espécie camelo. É um duplo apresentado ali.”

Em determinado momento, o registro não bastava. “Não era suficiente esse lugar dos objetos serem resgatados, retirados dessa espécie de encarceramento que acontece no museu. O encarceramento classificatório, museológico.” A resposta foram performances que resultam em fotografias: máscaras gregas impressas em escalas distintas, riscadas ou apagadas, performers em ação diante de fundos também fotografados.

A repetição —fotografias de fotografias, imagens sobre imagens— é assumida como método. “Tem um poema meu que diz: ‘as imagens são imagens, são imagens, são imagens’.” Para Borges, trata-se de sustentar o enigma. “Se eu quiser falar numa frase o que o meu trabalho significa, é uma pesquisa entre a representação, a matéria e a imagem. Eu acho incrível uma coisa: o que é uma imagem? Para mim, é mais sobre conseguir sustentar esse enigma do que chegar a uma conclusão.”

Parte dessa reflexão passa pelo pensamento do autor francês Roland Barthes. Borges cita o ensaio “A Morte do Autor”, de 1968, como leitura decisiva. Para ele, o significado de qualquer coisa encolhe ou se expande conforme a capacidade de um momento histórico de absorvê-lo. “O sentido de algo não está na ação do artista e nem no objeto em si. Está na capacidade da gente tirar mais ou menos daquele objeto. Então, os objetos são uma espécie de esfinges”, diz a artista.

Outro aspecto da investigação de Borges se desdobra na escala: muitas das obras atingem dimensões monumentais, mesmo representando objetos muito pequenos. Para ela, o mistério daquilo que fotografa é maior que o homem e, por isso, não pode ser confrontado por um corpo que se imponha sobre o que vê. A ampliação, assim, desloca o espectador e altera sua posição diante da imagem: “As imagens precisam ser muito grandes para colocarem o observador nesse lugar de impossibilidade de abarcar aquilo.”

Indo na direção contrária ao regime das fotografias ampliadas, a artista também explora trabalhos recentes, em menor escala, em pintura sobre veludo, deslocando o campo bidimensional fotográfico para o pictórico.

Segundo Borges, o interesse pelo material surgiu a partir da curadoria realizada na Bienal de São Paulo de 2018, quando utilizou cortinas como “objetos propositivos”. À época, explica, a cortina de veludo funcionava como um “separador entre mundos”; ao decidir pintar sobre o tecido, buscava reativar esse sentido de portal, de passagem, de “entremundo”.

Em contraste com as pinturas que alçam o espaço tridimensional nas curvas e nos vincos do veludo, aparecem trabalhos em papel japonês de baixíssima gramatura, quase etéreos. Borges afirma que passou a se interessar pela ideia de uma imagem imaterial, buscando entender como seria uma imagem “pura”, sem aderência à matéria.

Vivendo entre Nova York e São Paulo, após temporadas na Grécia e em Paris, a artista identifica em sua experiência na Europa um contato mais direto com o passado —dimensão que alimentou sua pesquisa. Dessa relação com o tempo longo da história emerge uma de suas principais interlocuções: as pinturas de cavernas pré-históricas, especialmente as da Caverna de Chauvet, na França. “Esse tentar representar o irrepresentável, o inefável, o absoluto, ele é da ordem da existência. E eles [os desenhos na caverna] mostram que isso está em potência pura desde sempre”, diz.

No ateliê exposto na Central, a tentativa de tocar o irrepresentável não se apresenta como conclusão, mas como processo aberto. “Eu penso que eu fico cavando a imagem. Eu fico querendo ver atrás da imagem. Quero ver mais atrás.” A exposição, mais do que mostrar obras acabadas, encena esse gesto de escavação —uma arqueologia da própria prática.

Autor Original

You may also like

Leave a Comment