É fato que os preços exorbitantes de muitas obras nesta última SP-Arte, encerrada neste domingo, chamaram a atenção, com peças na casa dos R$ 20 milhões de Tarsila do Amaral e Philip Guston e outras joias à venda, algumas de vestir mesmo, desenhadas por Pablo Picasso e Roberto Burle Marx, que deram um ar de “bling” à festança do circuito.
Os mais eufóricos, no entanto, parecem ser os artistas mais novos que conquistam cada vez mais espaço em coleções institucionais de peso e também os acervos privados, que têm olhado mais para a nova geração e esnobado um pouco os medalhões de valores altíssimos —o que não quer dizer que os preços da nova safra de artistas do país estejam baixos, longe disso.
Entre os novos, aliás, há artistas já com décadas de estrada que só entraram agora debaixo dos holofotes, caso de Nádia Taquary, que esteve na última Bienal de São Paulo e teve trabalhos vendidos pela carioca Portas Vilaseca, e Ayrson Heráclito, com peças na mesma galeria e na Paulo Darzé, de Salvador. Heráclito é um dos poucos brasileiros na mostra principal da Bienal de Veneza, que começa no mês que vem na cidade italiana.
Galerias mais novas, aliás, injetaram um certo frescor na feira para além dos nababescos acervos do mercado secundário, aquele de artistas já mortos ou peças que já circulam pelo mercado. A Yehudi Hollander-Pappi vendeu Castiel Vitorino Brasileiro, destaque da Bienal de São Paulo retrasada. A Zielinsky emplacou três artistas do coletivo Vilanismo, novo nome forte na cena e que também já passou pela mostra paulistana. A Mitre vendeu trabalhos de Davi de Jesus do Nascimento, que terá uma individual no Instituto Inhotim, em Minas Gerais, neste mês, e de Luana Vitra e Manaura Clandestina, que também já tiveram suas passagens pela maior e mais tradicional exposição do país.
Mesmo casas gigantes, como a Fortes D’Aloia & Gabriel, que fez uma festa concorridíssima na semana passada, ampliaram o olhar para essa nova leva, vendendo trabalhos de Antonio Társis e Márcia Falcão, dois nomes revelados também na última Bienal de São Paulo.
Essa movimentação em torno desses artistas revela uma mudança importante no mercado. Por um lado, colecionadores mais tradicionais parecem ter perdido o medo de arriscar, e os museus também estão mais atentos do que nunca a esses criadores, o que mostra um alinhamento no circuito. Ou seja, parece haver menos especulação e mais crença no progresso desses artistas já chancelados pelas grandes mostras do país.
Mas há um problema no horizonte. Galeristas grandes e pequenos, que precisam bancar estruturas cada vez mais caras, desde o aluguel ou a construção de sedes imponentes num mercado imobiliário de preços nas alturas, vêm aumentando valores de obras até de artistas estreantes a patamares quase impensáveis.
Isso, na prática, pode queimar um artista jovem, que pode estar agora na moda e amanhã não mais. O mercado de arte, afinal, não opera como a Bolsa de Valores, com ações que sobem e descem. Baixar o preço de um artista é decretar, de certa maneira, a sua decadência.
Nos jantares e festas da última semana, esse era o assunto de todas as rodas. Por um lado, existe uma voracidade na compra de muitos desses nomes que incendeiam o circuito, e por outro há um temor de que essa alavancagem rapidíssima, com preços que se multiplicam a cada mês, seja insustentável no longo prazo.
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