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Stephen King reescreve ‘João e Maria’ – 06/04/2026 – Folhinha

by Silas Câmara

Se eu disser que chegou às livrarias uma nova versão de “João e Maria”, talvez você pense: ué, mas por que vou perder meu tempo lendo uma história que todo mundo já conhece? Essa é uma ótima pergunta.

Para respondê-la, não basta dizer que o novo “João e Maria” é um livro para crianças que nasceu de uma parceria sombria e explosiva entre os americanos Stephen King, escritor que os adultos chamam de mestre do terror, e Maurice Sendak, autor do famoso “Onde Vivem os Monstros”.

Na verdade, esse clássico está sendo escrito há muito tempo. Mas muito mesmo, hein? Há vários e vários séculos, nós escutamos a história dos dois irmãos que são abandonados pelo pai e pela madrasta numa floresta, tentam fazer uma trilha de migalhas de pão, se perdem na mata e encontram uma casa de doces, onde mora uma bruxa que sequestra as crianças.

Não à toa, esse tipo de texto recebe um nome bem especial dentro da literatura: conto de fadas. Muitos deles são tão antigos que as primeiras versões já eram contadas em volta da fogueira pelos antepassados do tataravô da sua trisavó, quando os livros ainda nem tinham sido inventados, muito menos os celulares e computadores.

É como se os contos de fadas fossem uma máquina do tempo, na qual a gente pudesse entrar e abrir uma janela para o passado. Afinal, para chegarem até aqui, eles foram transmitidos de boca em boca ao longo de gerações, passando por tantas línguas e tantos povos que é impossível apontar apenas um autor, muito menos uma versão que seja 100% original.

Mas isso não quer dizer que essas aventuras sejam peças de museu. No fundo, elas também são uma janela para o futuro. Nos seus enredos, encontramos tudo aquilo que nos faz humanos, desde sempre e provavelmente para sempre: nossos medos, paixões, desejos e segredos.

No caso de “João e Maria”, a história guarda principalmente os medos. Não só o medo da bruxa ou da floresta escura, mas também o medo da fome, de ser abandonado e até de se tornar adulto e deixar a infância para trás.

Esses receios e arrepios se transformaram em narrativa ainda nos tempos antigos, ganharam novos significados na Idade Média e nas grandes fomes da Europa, passaram por autores como o italiano Giambattista Basile e por obras como “O Pequeno Polegar”, do francês Charles Perrault.

Foi só depois de toda essa andança que os irmãos Grimm escreveram a versão de “João e Maria” que hoje é mais conhecida e considerada original, publicada na Alemanha em 1812.

E não acaba aí. O conto de fadas está vivo e continua sendo escrito até hoje —a versão de King e Sendak é prova disso. Nela, os autores preservam o tom sombrio dos Grimm e mantêm a bruxa que morre dentro do forno, a madrasta impiedosa e o pai incapaz de proteger os filhos. Ao mesmo tempo, ambos não têm medo de alterar a história, mexer em alguns dos ingredientes e criar algo diferente.

Talvez a mudança mais interessante esteja na casa feita de doces. No livro, publicado no Brasil pela Companhia das Letrinhas, a residência da bruxa se torna uma espécie de armadilha viva, quase um monstro de verdade, com pirulitos que ganham dentes e um caminho de balas que se transforma numa língua comprida.

Legal, né? O primeiro a propor essa mudança foi Sendak, que criou as ilustrações da obra em 1997, originalmente para uma ópera. Quase 30 anos depois, King escreveu o texto baseado nesses desenhos, que nunca tinham sido publicados pelo artista, morto em 2012.

É por isso que sempre vale a pena reler “João e Maria” e todos os outros contos de fadas. Porque eles não têm começo —e talvez nunca tenham fim.

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