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Teatro maranhense desafia hegemonia Rio-São Paulo – 09/04/2026 – Mise-en-scène

by Silas Câmara

A Pequena Companhia de Teatro, sediada no Maranhão e liderada pelo encenador Marcelo Flecha, projeta-se no cenário nacional não apenas pela longevidade de sua fundação em 2005, mas por uma rigorosa “consciência periférica”. O grupo subverte a hegemonia do eixo Rio-São Paulo ao exportar uma tecnologia de cena própria, fundamentada na autonomia técnica e na densidade poética. “Ensaio sobre a memória”, montagem assistida pela coluna, vai além da mera transposição literária para investigar as fraturas éticas do indivíduo sob regimes de exceção.

Livremente inspirado no conto “A outra morte”, de Jorge Luis Borges, o espetáculo opera uma transferência semiótica onde o tempo metafísico do autor argentino é reconfigurado para a urgência política latino-americana. Se em Borges a redenção de Pedro Damián se dá por uma intervenção divina que altera o passado, na leitura de Flecha, o foco recai sobre a mecânica da culpa e a construção de fake news subjetivas. Damián (Lauande Aires) não é um herói épico, mas um homem estilhaçado pela tortura, cujo grito inicial sob luz vermelha pulsante estabelece, de imediato, um pacto de desconforto com a plateia.

A encenação estrutura-se como um labirinto cênico conduzido por um Escritor (Cláudio Marconcine) e sua Memória (Dênia Correia). O palco torna-se um tribunal da consciência, onde versões contraditórias do mesmo fato são reencenadas, privilegiando a tensão física em detrimento do psicologismo. A presença dos atores é dilatada por uma deformação consciente, transformando a precariedade do recurso em potência estética. Um objeto carregado de memória real — um brinquedo de madeira construído pelo pai de Flecha há 50 anos — serve como eixo cenográfico, simbolizando a impossibilidade de escape da roda-viva histórica.

A obra também propõe uma reflexão contundente sobre a delação: a distinção moral entre a conveniência e o colapso do corpo diante da tirania do Estado. A iluminação e a sonoplastia, operadas sob o conceito de “Artesania Iluminocenográfica”, são motores dramáticos que respondem à escassez com inteligência visual.

A Ocupação: Um Método de Resistência

“Ensaio sobre a memória” compõe um painel mais amplo da trajetória do grupo no CCBB SP, que inclui as montagens “Velhos Caem do Céu como Canivetes”, “Pai & Filho” e “Desassossego”. Esta mostra é o coroamento de um método de ações continuadas que prioriza o teatro como compromisso político de longa duração.

A ocupação é complementada pela exposição “Pequena Mostra de Teatro” no foyer, revelando figurinos e diários de processo, além de oficinas que discutem a transformação de resíduos e equipamentos obsoletos em dramaturgia visual. O que se vê em São Paulo é a vitória de uma linguagem que, ao lidar com gigantes como Kafka, Borges e Pessoa, não se intimida pela falta de fomento, mas faz da autonomia a sua maior virtude cênica. É o teatro maranhense reafirmando que a verdadeira universalidade nasce do aprofundamento das próprias raízes e da investigação incansável do ser humano.

Três perguntas para…

… Marcelo Flecha

Em “Ensaio sobre a memória”, a investigação gira em torno de um homem que tenta reescrever seu passado após um trauma político. De que forma o dispositivo de reconstruir versões contraditórias no palco e o uso de objetos pessoais ajudam a expor a fragilidade e a manipulação da memória histórica e subjetiva?

Penso que esse é o espetáculo que aborda o tema mais delicado e pontual pelo momento histórico que vivemos. Ele contribui muito no diálogo com o espectador em relação a essas variações de história, esse borramento e esse apagamento. Quando falamos em apagamento, reverberamos parte da imaturidade política do nosso país em relação às versões da história e à verdade. A ideia de corroborar esteticamente com todo esse material é sempre para gerar um reforço, fazendo com que o espectador se comunique profundamente com a obra que apresentamos.

Como os quatro espetáculos da ocupação, inspirados em gigantes da literatura, dialogam entre si para formar um painel da evolução estética do grupo ao longo dessas duas décadas?

O diálogo essencialmente se dá a partir do campo existencial. De alguma maneira, as quatro obras se conectam pelo questionamento sobre a vida e a existência, pese a uma trabalhar um viés mais político, outra um viés mais metalinguístico e outra o realismo mágico. Acho que todas buscam perceber como as relações humanas vão sendo tecidas durante a trajetória do mundo, da própria companhia e do espectador. Quem assiste aos quatro espetáculos percebe esse elo: o querer pensar e refletir sobre a vida, trazendo respostas ou perguntas.

O grupo utiliza o “Quadro de Antagônicos” para fugir de construções naturalistas. Como esse treinamento físico-energético molda a presença do ator e a recepção do público diante de personagens tão viscerais?

Nossa construção não naturalista é um posicionamento político de estabelecer outras possibilidades para o espectador. Ao trabalhar com personagens mais alargados, tentamos colocar uma lupa no ser humano, ampliando-o para a percepção do público e gerando maiores campos de interpretação e leitura. Isso tem favorecido nossa trajetória por uma opção estética e política.

Mas é importante lembrar que o método não é um gesso. No caso de “Ensaio sobre a Memória”, por exemplo, a montagem demandou outro tipo de trabalho, sendo o único espetáculo da companhia que não utilizou o Quadro de Antagônicos. Não é para engessar, e sim para expandir; contudo, essa acabou se tornando uma característica básica, que faz com que o espectador reconheça naqueles corpos o trabalho que a Pequena Companhia desenvolve em relação à dramaturgia do ator.

CCBB – rua Álvares Penteado, 112 – Centro Histórico. Dessassossego – Quinta, sexta e segunda, 19h. Sábado e domingo, 18h. Até 20/4. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Retirada de ingressos:Grátis na bilheteria do CCBB SP e pelo bb.com.br/cultura


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