Home » Tenente-coronel teria agarrado vítima antes de disparo – 18/03/2026 – Cotidiano

Tenente-coronel teria agarrado vítima antes de disparo – 18/03/2026 – Cotidiano

by Silas Câmara

A posição do corpo e das manchas de sangue da policial militar Gisele Alves Santana, 32, as marcas de agressão no seu rosto e as contradições no depoimento do marido foram as principais provas para que a Justiça Militar determinasse a prisão do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto nesta quarta-feira (18).

Laudos dos exames feitos no corpo da vítima, que era soldado da PM, fizeram com que os investigadores chegassem à conclusão de que Gisele foi abordada por trás pelo agressor, que segurou com força sua boca e mandíbula com a mão esquerda e disparou a pistola com a direita. A arma era do tenente-coronel.

Esses detalhes constam na decisão do juiz substituto Fabrício Alonso Martinez Della Paschoa, do Tribunal de Justiça Militar. O magistrado destacou os laudos da Polícia Técnico-Científica que apontaram a “impossibilidade de a vítima ter efetuado o disparo contra a própria cabeça”.

A Folha ligou e encaminhou mensagens ao advogado que defende o oficial da PM, mas não obteve retorno até a última atualização deste texto. Na terça (17), ao ser questionada sobre o pedido de prisão feito pela Polícia Civil, a defesa declarou que Neto estava à disposição das autoridades. Afirmou também não ver elementos que justificassem eventual prisão preventiva, que não tem prazo definido.

Foram encontrados espirros de sangue num vidro da varanda do apartamento, num padrão que indica que o disparo ocorreu a cerca de 1,5 metro de distância da superfície. A partir disso, a perícia concluiu que o corpo não poderia ter caído no ponto em que foi encontrado e fotografado pelos bombeiros que atenderam a ocorrência no apartamento no Brás, no centro de São Paulo.

A perícia levou à conclusão de que o corpo de Gisele foi movimentado após o disparo. Isso e o fato de o tenente-coronel ter sido a única pessoa no apartamento com ela antes da chegada do socorro levou à conclusão de que ele foi o autor do disparo, escreveu o juiz.

“Os mesmos elementos probatórios também evidenciam, em tese, a ocorrência do delito de fraude processual, pois há indicativos concretos de alteração artificiosa do estado de coisas, do lugar e do próprio corpo de delito, com o propósito de induzir a erro a investigação” diz a decisão de Della Paschoa.

Neto foi preso na manhã desta quarta-feira (18) em São José dos Campos (SP), onde tem residência, após decisão da Justiça Militar. Ele afirmou que Gisele cometeu suicídio enquanto ele estava no banheiro, tomando banho.

Foram encontrados vestígios de sangue no box, no piso, em paredes e em torneiras do banheiro, assim como em roupas do tenente-coronel e em uma toalha. Essas provas estão “em frontal contradição com a versão de que [Neto] não teve contato com o sangue nem manipulou a cena”, diz trecho de uma manifestação do Ministério Público reproduzida pelo juiz.

“A reconstrução tridimensional do ambiente concluiu que, da porta do banheiro, não era possível visualizar o corpo na posição registrada nas fotos de chegada dos socorristas”, disse a Promotoria, o que também contrariou o depoimento do tenente-coronel.

Segundo o MPSP (Ministério Público de São Paulo), o conjunto de provas “afasta a hipótese de suicídio e indica que Gisele foi abordada por trás, com mão esquerda do agressor na mandíbula/face e arma na mão direita dirigida à têmpora direita.”

Para a acusação, o tenente-coronel também colocou a pistola na mão do corpo de Gisele. Fotos do corpo, no momento em que foi encontrado pelas equipes de socorro, mostram o punho direito de Gisele flexionado e a mão segurando a pistola. O cano da arma estava apoiado na coxa direita do cadáver.

A posição da arma foi considerada incomum por um socorrista, o que acabou corroborado pela investigação policial.

Segundo o superintendente da Polícia Técnico-Científica, Claudinei Salomão, a bala foi encontrada alojada na parte frontal do crânio de Gisele. Ou seja, o tiro teria partido de trás para a frente da cabeça.

A autópsia apontou que a soldado Gisele não foi asfixiada, e que a morte foi provocada pelo tiro na cabeça.

Além da acusação de fraude processual, Neto também responde por feminicídio e violência doméstica. Registrado inicialmente como suicídio, o caso sofreu uma reviravolta a partir de laudos periciais da cena do crime e informações do relacionamento conturbado do casal.

Suspeita contra desembargador foi descartada

Tanto a Corregedoria da PM quanto a Polícia Civil também afirmaram, durante entrevista coletiva, que estão descartadas suspeitas contra o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Cogan foi ao apartamento a pedido do tenente-coronel enquanto o local ainda recebia as equipes de socorro. De acordo com um policial militar que atendeu a ocorrência, Neto se recusou a comparecer diretamente à delegacia no dia em que Gisele morreu e ficou a todo momento falando ao telefone celular, inclusive com o desembargador.

Informado que não poderia tomar banho, ele ficou apenas de bermuda e chinelo sentado no chão do corredor externo até a chegada de Cogan. Após a chegada do magistrado, ainda segundo o depoimento, ele entrou no apartamento, tomou o banho e vestiu outra roupa.

Apesar de ter alegado em depoimento que estava no banho quando ouviu o tiro, a investigação colheu informações de que o banheiro estava seco no momento em que as equipes de socorro chegaram ao local.

Segundo o delegado Saito, câmeras corporais das equipes que atenderam a ocorrência registraram a presença do desembargador no local, mas não apontaram qualquer indício de que ele tenha participado da alteração da cena.

O corregedor-geral da PM, coronel Alex dos Reis Asaka, também afirmou que não houve desvio de conduta no fato de que o apartamento foi limpo por três policiais do setor de atendimento psicossocial da corporação. As autoridades ressaltaram que o local já havia sido liberado pela perícia técnica.

Asaka disse que “os policiais foram lá de forma humanitária para fazer essa limpeza, para que não ficasse a cargo da família”. Ele disse que deixar o serviço para familiares do policial militar poderia causar “constrangimento”, e ressaltou que àquela altura a principal suspeita ainda era de suicídio.

Autor Original

You may also like

Leave a Comment