Como em uma fábula, “O Olhar Misterioso do Flamingo”, em cartaz nos cinemas, enxerga as suas travestis como flamingos —criaturas mais fortes juntas, tão belas quanto vulneráveis.
E, embora se debruce sobre uma pequena comunidade chilena, o filme se equilibra entre a realidade e o misticismo para dissecar temas que são universais, como a marginalização de corpos dissidentes e os traumas deixados pela Aids.
O longa é contado pela visão de Lidia, menina de 11 anos que tenta entender as dores das travestis que a adotaram. Sua inocência se esvai conforme ela vislumbra as crueldades cometidas pelos homens do vilarejo, que nutrem tesão e repulsa pelas suas cuidadoras.
“Lidia não tem preconceitos. Conhece todas aquelas travestis desde que nasceu e as vê como são, pessoas normais. Esse é o lado bom de escrever e filmar crianças —a pureza da alma”, disse o diretor do filme, o chileno Diego Céspedes, durante uma sessão no Festival do Rio, em outubro do ano passado.
A garota vive num vilarejo isolado, no deserto do norte do Chile, numa casa onde as travestis da região se unem para tentar levar a vida com mais dignidade. Uma delas é sua mãe biológica, mas é em Flamingo, interpretada pelo ator Matías Catalán, que Lidia vislumbra uma super-heroína.
Desprendida de qualquer moral, Flamingo causa encantamento e espanto, mesmo entre as suas, por ter uma postura livre, leve e solta —às vezes até demais, julgam as colegas.
Mas Flamingo é abatida por uma doença misteriosa. Na vizinhança, corre o rumor de que a enfermidade, contagiosa, é transmitida pelo olhar das travestis. Embora a ideia soe absurda —num claro paralelo ao pânico e à desinformação que marcaram a epidemia de Aids nos anos 1980—, elas próprias passam a desconfiar de que, talvez, possuam mesmo uma visão letal.
Para reforçar esso lado místico da história, Céspedes recorreu ao realismo mágico, tradição na produção hispano-americana. Seu objetivo é usar metáforas fantasiosas, como a relação entre as protagonistas e os flamingos, para criticar a realidade conturbada do Chile, da América Latina, do mundo. O filme nunca se preocupa em explicar doença com ciência. O que acontece, acontece e pronto.
“A raça humana sempre tenta dar sentido a coisas que não entende. Tenta criar deuses, algo que nos faça sentir vivos. O Chile é um país cheio de mitologia. Se você não entende uma doença mortal, simplesmente tenta dar um sentido e repete o que é aceito. No filme, o aceito é o ódio a essa comunidade.”
Lidia, a criança, se vê forçada a aceitar que uma forma de afeto foi transformado em paranoia. Ela se sente cada vez mais impotente enquanto as mestras padecem.
A atmosfera de perigo se amplia com os elementos de faroeste que Céspede impõe à trama, com o vilarejo árido, personagens à deriva e violência sempre à espreita. Mama Boa, a matriarca da casa, interpretada pela chilena Paula Dinamarca, é retratada como uma xerife.
Apesar do drama, o filme tenta fazer a plateia rir, nem que seja de nervoso. Céspedes diz que é desse jeito que ele gosta de ver a vida, um misto nem sempre calibrado de humor, tristeza e violência, e que recusou a ideia de pintar um retrato ingênuo das personagens. “São travestis, mas nem por isso bondosas por inteiro. São encrenqueiras.”
Embora diga não querer vender seu filme como ato político, o cineasta reconhece que a existência dele tem, sim, algo de resistência. “Vivemos o momento mais perigoso para toda a comunidade LGBTQIA+. Precisamos dizer que existimos, que somos iguais”, afirma. “Há pessoas malucas em papéis de liderança no mundo.”
“O Olhar Misterioso do Flamingo” é o primeiro longa de Céspedes. Foi financiado com fundos de vários países, como Chile e França, e levou cinco anos para ficar pronto.
Lançado no Festival de Cannes do ano passado, a obra venceu a competição Um Certo Olhar, criada para contemplar projetos de diretores emergentes. Céspedes chamou a atenção por derrotar nomes de Hollywood, como as americanas Kristen Stewart e Scarlett Johansson, que também se lançaram como cineastas.
O filme, então, foi escolhido para representar o Chile no Oscar, mas acabou de fora da lista de indicados.
O jornalista viajou a convite do Festival do Rio