A espera foi longa, talvez de uma vida —ou várias. Na primeira vez em que pisou no Brasil, em 2011, Tyler, the Creator era apenas um. Ele era um dos cabeças da clique mambembe Odd Future, coletivo que reunia jovens artistas do hip-hop um tanto esquisitos para os ditames do rap clássico. Era a esquisitice, porém, o salto à frente do gênero.
Desde então, Tyler se tornou vários, e seu art rap se tornou referência. Ele assumiu personas tantas a ponto de cultivar heterônimos. O Duende que o lançou no rap, o desabrochado Garoto da Flor, o empafiado Igor, o relaxado Big Poe.
É esse teatro de si mesmo que Tyler trouxe, pela primeira vez, ao Brasil. Na pista do Lollapalooza, uma plateia que ansiava por ele —ainda que não tão numerosa quanto nos shows de Sabrina Carpenter e de Chapell Roan.
Uma carreira tão prolífica —seu epônimo “o Criador” não é à toa: Tyler faz de um tudo, entre moda, design e até cinema— não caberia em pouco mais de uma hora de show. A apresentação, por isso, teve um maior número de músicas do seu penúltimo álbum, “Chromakopia”.
Poderia ser uma pena para o público, que não pode ver o rapper em outros momentos da carreira –ele também cancelou um show no Brasil em 2018. Mas tão logo acabou a primeira música, “Big Poe”, o público cantou em uníssono o título do disco encabeçado por mais um de seus personagens, o taciturno St. Chroma.
Foi uma sequência de cinco faixas do disco. Em “Rah Tah Tah” o público pulou junto com ele e em “Noid”, mais contemplativa, o artista rimou sobre suas inseguranças e vulnerabilidades —”Tem alguém me observando”, ele abre uma das estrofes. Era o Tyler sem a inconsequência dos tempos de Odd Future, mas carregado de reflexão sobre si.
Vestido dos pés à cabeça de vermelho, Tyler abriu a seção romântica do show dançando como quem flerta. Faixas como “Sugar on My Tongue” e “Ring Ring Ring”, do seu último disco, botaram o público para dançar e cantar enquanto o rapper cantava, às vezes com seu falsete característico, sobre amor e sexo.
Uma pausa para brincar com o público em tom de desculpas pela ausência longa, e o artista avançou na sua discografia dos anos 2010 em pequenos trechos de seus maiores sucessos como “Are We Still Friends?” e “Sweet”, com uma levada reggae incomum até para excentricidade do rapper.
O caminho tem um dinamismo, subidas e descidas, altos e baixos expressos na sua caneta. Nessa insistência de ser tantos, Tyler também rima sobre amor no desamor e vice-versa. No palco, é uma entrega visceral, em que ele grita, se exalta, declama. Ele está só, literalmente: não há DJ nem dobra vocal, como é comum para outros rappers.
Mas “IFHY”, sob acordes de piano lamuriosos, ele canta com um público tristonho: “Eu te odeio, mas te amo”. A moeda vira de lado logo em seguida, quando os acordes de “I Think” mostram seu lado mais otimista. Em um de seus maiores sucessos, ele canta com um público alegre: “Eu acho que estou me apaixonando”.
“Tamale”, faixa em que ele consegue mostrar outras características da sua forma de fazer rap entre samples mais impactantes e rimas mais diretas, ganhou uma versão especial no show em ritmo de funk —mais um aceno para o público, que gritou enquanto Tyler pulava com a bandeira do Brasil com seu rosto estampado.
A saída veio com “Like Him”, entre balada romântica e rap magnânimo, sob uma cascada de faíscas. “New Magic Wand”, um dos destaques do disco “IGOR”, também ganhou entrega potente do rapper, que não largou o osso até o último acorde –a ponto de brincar de latir para o público, que o respondeu no mesmo idioma.