Depois de surpreender a todos lançando um EP com seis faixas na Quarta-Feira de Cinzas, no dia 18 de fevereiro, o U2 quase consegue outra surpresa de mesmo impacto ao soltar mais meia dúzia de canções na Sexta-Feira Santa, no último dia 3.
“Days of Ash EP”, lançado há dois meses, é seguido por “Easter Lily EP”, ou lírio-da-Páscoa EP. Muito parecido no formato, é uma continuação. Se, no primeiro, as guerras atuais deram o tom, agora é um disco de amor, de letras espirituosas, às vezes quase infantis.
É impossível dizer que não há surpresa, porque a grande novidade é ver o U2 mais ligado a baladas roqueiras e fazendo um segundo EP bem melhor do que o anterior. Duas músicas, “In a Life” e “Scars”, poderiam entrar em qualquer um dos discos incríveis que a banda lançou nos anos 1980.
O disco é oferecido aos fãs em clipes no YouTube. Todos têm o formato de “lyric videos”, com os versos exibidos na tela sobre imagens quase sempre estáticas. São praticamente álbuns de fotos com uma trilha sonora.
Os seguidores mais intensos da banda irlandesa devem eleger “In a Life” como o videoclipe mais atraente, porque as imagens que ficam pipocando na tela são fotos antigas dos integrantes do grupo, sozinhos ou separados, desde a adolescência. É divertido acompanhar a evolução dos quatro, notadamente nos cabelos que crescem e encurtam seguidamente, às vezes seguindo moda, outras vezes lançando tendências.
A abertura é “Song for Hal”, dedicada a Hal Willner, produtor de álbuns antológicos de rock e jazz. Ele morreu durante a pandemia de Covid, aos 64 anos. A letra, a mais poderosa escrita por Bono em muito tempo, fala da força da música na vida das pessoas. Já traz mais punch roqueiro do que todas as músicas do EP de fevereiro.
Aí vem a dupla de canções fortes, “In a Life” e “Scars”, mais interessantes do que praticamente todos os singles de rock lançados diariamente no planeta. Juntas, conseguem uma consistência musical robusta, como o U2 não mostrava desde “Achtung Baby”, em 1991.
Depois de meio EP primoroso, a banda deixa a peteca cair nas faixas seguintes. “Resurrection Song” e “Easter Parade” trazem um resgate do U2 mais pop, que percorreu o mundo em megaturnês durante os anos 1990.
As músicas abandonam um pouco da bateria marcial de Larry Mullen Jr. e da levada épica de muitos hits da banda. Entram em cena canções mais sacudidas, dançantes, com a guitarra de The Edge e o baixo de Adam Clayton mais preocupados em balançar quadris do que entorpecer consciências.
Mas são canções que servem para conectar fãs mais recentes com essa fase da banda dedicada a baladas e som eletrônico, que tende a ser obscurecida pelos discos mais antigos, de rocks políticos.
Falando em viagens no tempo, o EP encerra com uma celebração. “COEXIST (I Will Bless the Lord at All Times?)” marca um reencontro do U2 com o músico e produtor Brian Eno.
Em 1984, o ex-integrante do Roxy Music produziu com Daniel Lanois o quarto álbum do U2, “The Unforgettable Fire”. Este foi o disco que efetivamente transformou a banda em gigante do rock.
É um álbum pretensioso, quase arrogante em suas canções que falam de amor e política sobre uma intrincada malha sonora. Músicas épicas como “Pride (In the Name of Love)”, “A Sort of Homecoming” e a faixa-título são longas, cheias de encaixes entre trechos que muitas vezes parecem canções diferentes, como suítes de música erudita. E, nessa sofisticação, são irretocáveis.
COEXIST (I Will Bless the Lord at All Times?)” segue essa cartilha em seus quase sete minutos. É uma costura musical que praticamente afronta esta época de TikTok e músicas que tentam capturar o ouvinte em menos de 30 segundos.
A fiaxa não chega ao sublime encontrado no álbum “The Unforgettable Fire”, mas é uma demonstração de que o U2 ainda pode reencontrar a força arrebatadora de seu rock singular.
O único álbum lançado pelo U2 nos últimos nove anos é “Songs of Surrender”, uma longa releitura de músicas que a banda já gravou, entre elas hits globais. Ao lançar “Days of Ash EP”, em fevereiro, Bono falou de um novo álbum ainda em 2026. Agora chegou “Easter Lily EP”. Para o fã do melhor do U2, é bom que o prometido álbum siga mais este EP do que o anterior.