A guerra de Putin, que deveria durar dias ou semanas, completa seu quarto aniversário. É uma catástrofe social para a Ucrânia, um desastre histórico para a Rússia, um atestado da debilidade geopolítica da Europa e um veredito sobre Trump.
A Ucrânia tinha 46 milhões de habitantes em fevereiro de 2022. Hoje, tem cerca de 10 milhões a menos, entre refugiados no exterior, mortos na guerra e habitantes de áreas sob ocupação. Torna-se uma nação de viúvas, enquanto sua taxa de fertilidade declina para metade da taxa mínima de reposição.
Putin perdeu a guerra, sob uma perspectiva estratégica. As forças russas revelaram-se incapazes de submeter uma nação várias vezes menor, tanto em termos demográficos quanto pelas réguas do poderio econômico ou militar. Na Rússia, as liberdades públicas, já estreitas, evaporaram inteiramente.
A economia russa resistiu, mas à custa de uma mutação estrutural regressiva. Transformou-se numa economia de guerra, cuja vitalidade repousa sobre os gastos bélicos. No processo, o pretendente a czar subordinou a Rússia, econômica e diplomaticamente, à China. Sem a ascensão de Trump, Putin teria que encarar uma genuína negociação de paz.
O PIB da Rússia equivale, grosso modo, ao da Itália. Mas a Europa revelou-se incapaz de confrontar o desafio de reerguer rapidamente sua indústria bélica, de modo a impugnar no campo de batalha a aventura russa. Mesmo hoje, depois da traição de Trump, são as armas americanas importadas pela Europa que propiciam a resistência militar ucraniana.
Os europeus carecem de líderes com estatura suficiente para persuadir os eleitores de que assegurar a soberania da Ucrânia é um interesse vital da Europa. A União Europeia resiste a definir um cronograma de ingresso ucraniano no bloco. Os europeus não alcançaram consenso nem mesmo para financiar a Ucrânia pelo uso, como empréstimo, das reservas financeiras russas congeladas.
Sob Biden, os EUA nunca conseguiram conciliar palavras e gestos. O apoio à Ucrânia foi declarado integral e inflexível. Contudo, temeroso da chantagem nuclear russa, Washington optou por gerenciar a guerra. Os EUA passaram três anos fornecendo ajuda militar capaz de evitar a derrota mas insuficiente para forçar Putin a recuar de suas pretensões maximalistas. Notoriamente, Biden excluiu de facto a hipótese de admissão da Ucrânia à Otan após o final do conflito, renunciando a um trunfo em futuras negociações com a Rússia.
Trump traiu o compromisso dos EUA com a Europa. A invasão russa violou os tratados assinados entre Rússia e Ucrânia, no rastro da implosão da URSS, que garantiam a soberania e as fronteiras ucranianas. Desde 1945, a Europa não assistia a uma anexação de territórios de uma nação independente. A Casa Branca, porém, enxerga o conflito da mesma forma que o Kremlin: como uma guerra civil no interior da “Grande Rússia”. O alinhamento de Trump a Putin reintroduziu a política de esferas de influência e sinalizou a ruptura da confiança europeia na aliança geopolítica com os EUA.
No último ano, os propalados avanços militares russos no leste ucraniano, obtidos à custa do sacrifício em massa de seus soldados, perfazem mais ou menos área equivalente à cidade de Moscou. A “paz” de Trump, que é a de Putin, segue distante. Motivo: a nação ucraniana não admite a capitulação.
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