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Um Oscar para o lindo caos da maternidade – 17/03/2026 – Joanna Moura

by Silas Câmara

Quando terminei de ver “Hamnet“, com os olhos inchados e o nariz entupido, levantei do sofá e andei a passos largos até a porta do quarto onde meus filhos dormiam. Guiada apenas pela vontade enorme de abraçá-los —e sentir o peito de cada um subir e descer e o arzinho quente e inebriante sair de seus pequenos narizes enquanto respiravam—, sem pensar duas vezes, sem medo de acordá-los, abri a porta e me deitei ao lado do caçula, acariciando seus cabelos, sussurrando em seu ouvido o tamanho do meu amor. Depois, repeti os mesmos gestos e as mesmas palavras na cama da mais velha, com meu corpo envolvendo o dela em concha, como ela gosta de ficar, fingindo que está na minha barriga novamente.

Hamnet, que foi indicado ao Oscar em oito categorias, mas só levou a estatueta para casa em uma, em teoria é um filme sobre Shakespeare e as vivências que o levaram a escrever “Hamlet”, uma de suas obras-primas. Mas o que vemos se desenrolar na tela é a história de uma mulher, Agnes, e a extraordinária força e vulnerabilidade que são paridas com um filho.

No domingo (15), sentada em frente à televisão, assistindo à cerimônia do Oscar, foi para essa história que eu torci.

Por sorte, para a preservação do meu patriotismo cinematográfico, poucas foram as categorias em que o embate entre “Hamnet” e “O Agente Secreto” foi direto. Pude, portanto, vibrar sem hesitação ao ver Wagner Moura aparecer no palco para anunciar a categoria de direção de elenco e também todas às vezes que a câmera pousava sobre ele e seus colegas de elenco em meio à plateia estrelada.

Gritei de orgulho quando o trecho de “O Agente Secreto” surgiu na tela, anunciando o filme como concorrente da principal categoria da noite, e, mesmo sem ter visto “Valor Sentimental“, gritei “injustiça!” quando fomos preteridos para o prêmio de melhor filme estrangeiro.

Mas —e essa parte escreverei em sussurros para que não ponham terminantemente em cheque meu ufanismo— preciso confessar que a maior decepção que poderia me acometer na noite de domingo seria ver Jessie Buckley, atriz que interpreta a personagem principal de “Hamnet”, sair de mãos abanando. Por sorte, e certamente por mérito de Jessie, isso não aconteceu.

Quando Mikey Madison, atriz que injustamente desbancou nossa Fernandinha nessa mesma categoria no ano passado, anunciou o nome de Jessie, soltei um suspiro de alívio. Pelo menos esse ano, justiça havia sido feita.

Relaxei na cadeira enquanto via aquela mulher de sorriso magnético, trajando um vestido com a minha combinação de cores preferida, subir ao palco e soltar uma gargalhada satisfeita. Se seu discurso de aceitação se resumisse a isto, já seria suficiente —afinal, a gargalhada sincera e sonora de uma mulher, mais ainda de uma mãe, será sempre revolucionária.

Mas Jessie foi além e fez o discurso mais emocionante e radical da noite. Não, ela não falou de imigração e não pediu liberdade para a Palestina, não mencionou Trump nem pediu paz no Oriente Médio — todas pautas muito necessárias e mencionadas por alguns de seus colegas que também subiram ao palco naquela noite.

“Quero dedicar este prêmio ao lindo caos que é o coração de uma mãe”, ela disse.

Ao ouvir suas palavras, chorei —não como criança, como diz o ditado, mas como mãe. Afinal, num mundo violento e mesquinho como esse em que vivemos hoje, nada me parece mais revolucionário e transformador do que esse amor avassalador e aterrorizante que nos consome e nos move. E nada me parece mais importante do que homenagear este trabalho hercúleo e caótico de tentar incansavelmente criar seres humanos melhores.


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