A Poli-USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo) vai oferecer um novo curso de engenharia eletrônica e sistemas computacionais a partir do vestibular para ingresso em 2027. A graduação mira a crescente demanda por profissionais capazes de atuar na interface entre hardware e software, em áreas como semicondutores e IA (inteligência artificial).
Apesar da novidade, a eletrônica não é tema inédito na Poli. Quem queria seguir nessa área precisava ingressar na engenharia elétrica, onde ela existia como uma das ênfases do curso. Agora ganha formação própria, com entrada independente no vestibular. Serão 56 vagas por ano, remanejadas das 170 da graduação original, sem que a escola aumente seu total.
Segundo o professor da Poli Gustavo Pamplona, um dos responsáveis pela criação e organização do novo curso, a estrutura tradicional da engenharia elétrica, baseada em uma formação generalista por vários anos, já não acompanhava as transformações do setor. “Essas áreas ficaram muito especializadas. Tecnologias como semicondutores, 5G ou inteligência artificial exigem uma formação mais direcionada desde cedo”, afirma.
No modelo anterior, o estudante ingressava em engenharia elétrica e passava os três primeiros anos em um ciclo comum de disciplinas básicas, fortemente concentrado em matemática e física. Apenas depois escolhia uma das habilitações, entre elas eletrônica e sistemas computacionais.
Agora, na nova graduação, o aluno terá contato com disciplinas de engenharia e projetos práticos desde o primeiro semestre. A reformulação curricular se baseia em um projeto piloto criado há cerca de três anos dentro da própria engenharia elétrica, chamado Percurso Competências, que introduziu atividades práticas já no início do curso.
“A gente precisa trazer a eletrônica logo para o começo da graduação, para motivar os alunos e mostrar onde eles vão aplicar o que estão aprendendo na matemática e na física”, diz Pamplona.
De acordo com o professor, a evasão nos primeiros anos é um problema recorrente nos cursos de engenharia. Parte desse movimento nem sempre aparece de forma evidente porque as vagas acabam sendo preenchidas por transferências internas e externas. “Muitos entram nessa graduação porque eram bons em matemática no colégio, mas não sabem exatamente o que faz um engenheiro. Com projetos logo no primeiro semestre, eles descobrem mais rápido”, afirma.
Outro diferencial do novo curso é a reorganização do ciclo básico. Em vez de concentrar matemática e física nos dois primeiros anos, o conteúdo foi distribuído ao longo de três anos, permitindo que os conceitos teóricos sejam aplicados gradualmente em projetos. Segundo o professor, alguns conceitos das matérias de exatas exigem mais tempo de assimilação pelos alunos.
Nos anos finais, os estudantes poderão escolher trilhas de aprofundamento em áreas como inteligência artificial, semicondutores e projeto de chips, sistemas embarcados, comunicações e processamento de sinais.
Em meio à expansão recente de graduações de IA no Brasil, Pamplona afirma que a Poli já trabalha com esses temas em seus cursos de eletrônica há mais de duas décadas. “A base da inteligência artificial é aprendizado de máquina, redes neurais e reconhecimento de padrões, e é isso que a gente ensina.” A área aparece hoje entre as de maior demanda no setor tecnológico.
O curso também prevê atividades de extensão voltadas à resolução de problemas reais, como o desenvolvimento de sensores ambientais ou soluções tecnológicas para comunidades e organizações sociais.
Segundo o professor, a formação quer desenvolver habilidades de comunicação e trabalho em equipe, cada vez mais exigidas no mercado. “O engenheiro não é mais aquele perfil solitário, calculista, introvertido. Ele precisa trabalhar em equipe, apresentar projetos, se comunicar.”
Embora tenha pontos de contato com a engenharia da computação, a nova graduação terá foco maior no desenvolvimento de hardware e infraestrutura eletrônica. “A computação pensa muito em software, sistemas operacionais e segurança. Nós estamos mais fortes no hardware. É a interface entre as duas áreas”, diz.
A escola também prepara a infraestrutura para o novo curso, com modernização de laboratórios de microcontroladores, aquisição de placas avançadas e reforma de salas limpas usadas na fabricação de chips. A expectativa da escola é que turmas menores também permitam maior proximidade entre professores e estudantes e um acompanhamento mais próximo ao longo da graduação.