Às vésperas do Carnaval, analistas de bancos brasileiros e estrangeiros fizeram questão de jogar confetes na Vale. O motivo do otimismo foi a divulgação de seus resultados, apontando perspectiva de valorização e uma boa possibilidade de gordos dividendos.
Colocando em números, foi US$ 1,46 bilhão de lucro líquido proforma no quarto trimestre de 2025 — cerca de R$ 7,6 bilhões. O termo “proforma” indica que o número exclui efeitos não recorrentes, sendo uma leitura mais precisa do desempenho operacional.
Fora do balanço, no entanto, a empresa segue em uma trajetória nada linear em relação a seus riscos, ou aos riscos que causa a terceiros. Na última segunda-feira (9), a Justiça de Minas Gerais determinou a paralisação das operações no Complexo Minerário de Fábrica, em Ouro Preto, após extravasamento de água e sedimentos.
O episódio foi registrado no dia 25 de janeiro. Coincidentemente, a mesma data do rompimento da barragem de Brumadinho, em 2019, quando a avalanche de lama e rejeitos de mineração fez mais de 270 vítimas fatais.
Mas não foi a infeliz data, nem o novo incidente, o maior motivo para trazer Brumadinho de volta à discussão. No dia 6, o ministro Kassio Nunes Marques, do STF (Supremo Tribunal Federal), votou pela anulação da multa de R$ 86,2 milhões imposta à Vale pela CGU (Controladoria-Geral da União), que acusa a empresa de inserir dados falsos no sistema de fiscalização de barragens e omitir informações de segurança, culminando na tragédia.
A punição havia sido imposta pela CGU com base na Lei Anticorrupção. Recurso após recurso, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) manteve a multa. A Vale levou para o Supremo e, agora, conseguiu um voto favorável à sua tese, de que só pode ser punido pela lei em questão quem pagou propina ou suborno.
A lista de processos relevantes e caríssimos envolvendo a Vale é extensa. Eles parecem, aliás, a pedra fundamental da companhia. Na década de 1920, o empresário americano Percival Farquhar, à frente da Itabira Iron Ore Company —que viria a se tornar a Vale—, enfrentou uma longa queda de braço com o então governador de Minas Gerais e, posteriormente, presidente Artur Bernardes, para explorar a mineração.
Em 1942, em meio à Segunda Guerra Mundial, sua empresa foi estatizada, na criação da Companhia Vale do Rio Doce, sob batuta de Getúlio Vargas, em novo duelo com empresários. Em 1997, no governo de Fernando Henrique Cardoso, a mineradora chegaria às mãos do setor privado, em um leilão que até dois anos atrás ainda era alvo de questionamentos na Justiça.
Disputas judiciais, paralisações operacionais, barragens e mudanças regulatórias são apenas alguns dos fatores de risco explícitos nos documentos disponíveis na CVM (Comissão de Valores Mobiliários), aos quais investidores deveriam dedicar um pouco de tempo.
Enquanto as incertezas sobre disrupção tecnológica são a maior ameaça sobre os ocupantes do topo das Bolsas dos EUA (Nvidia, Apple e Google), a concentração do mercado brasileiro em poucas empresas expõe os investidores a riscos institucionais e regulatórios recorrentes.
A história mostra que ignorar o mundo real e investir apenas com base em planilhas é tão perigoso quanto aplicar seu dinheiro apenas por convicção pessoal, desprezando os números.
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