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Wagner Moura foge da mesmice masculina no tapete vermelho – 12/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Meses antes do Oscar, o ator Wagner Moura percorreu uma intensa temporada de premiações e festivais para divulgar “O Agente Secreto“, filme de Kleber Mendonça Filho. Como ocorre em campanhas desse tipo, cada aparição pública passa a fazer parte da narrativa do filme —e a moda se transforma numa linguagem paralela, usada por vezes para reforçar a mensagem da obra.

Os looks mais recentes desfilados pelo ator construíram uma imagem precisa —elegante, cosmopolita e levemente experimental, resultado de uma parceria com a stylist Ilaria Urbinati, profissional radicada em Los Angeles que veste nomes como Dwayne Johnson, Chris Evans e Adam Brody.

Urbinati se especializou em trabalhar a partir da personalidade dos clientes. Em vez de impor tendências, ela costuma traduzir traços individuais em códigos visuais coerentes —prática comum em Hollywood, onde tapetes vermelhos funcionam como palco para a construção de identidade pública.

No caso de Moura, o ponto de partida foi a alfaiataria clássica masculina, mas reinterpretada com pequenas quebras de expectativa —monocromias inesperadas, proporções levemente amplas e acessórios que deixam menos rígidos os códigos das roupas de gala. É como se quisesse transpor a ideia de falar de um tema duro com um toque de irreverência, assim como em “O Agente Secreto” .

Esse equilíbrio apareceu logo no Globo de Ouro, quando o ator venceu o prêmio de melhor ator de drama. Moura usou um terno off-white da Maison Margiela combinado a calça preta e a gravata-borboleta, uma composição minimalista que ganhava força na escolha do sapato Tabi, modelo icônico da marca inspirado em calçados japoneses tradicionais. A peça, conhecida por dividir opiniões por causa da separação entre o dedão e o restante dos dedos dos pés, introduziu um gesto de ruptura num traje que, à primeira vista, parecia convencional.

No Bafta, em Londres, o ator voltou à alfaiataria clássica, desta vez com um terno de abotoamento duplo da Bottega Veneta. O conjunto ganhou personalidade por meio de detalhes —um broche em formato de flor de cerejeira com diamantes e pérolas criado pela joalheira Anabela Chan e sapatos com a técnica “intrecciato”, trançado de couro característico da marca italiana. Nesse caso, o styling apostou em intervenções discretas que funcionam como comentários contidos dentro da estrutura tradicional do traje masculino.

Outras aparições reforçaram a estratégia cromática da temporada. No Critics Choice Awards, Moura surgiu com um conjunto preto e camisa de inspiração oriental, enquanto no Santa Barbara International Film Festival vestiu tons claros de azul. Já no New York Film Critics Circle Awards apostou num look totalmente branco, ampliando o repertório monocromático que vem marcando as suas escolhas.

No almoço dos indicados ao Oscar, a lógica se repetiu com um conjunto de alfaiataria beterraba da marca Zegna. O look chamou atenção por fugir do repertório tradicional de cinzas, pretos e azuis que dominam a alfaiataria masculina em eventos formais.

Mesmo fora das premiações, o ator manteve esse vocabulário visual. Na semana de moda de Paris, por exemplo, assistiu ao desfile masculino da Dior usando um terno cinza combinado a camisa com detalhes em xadrez. Já no Toronto International Film Festival, chamou atenção ao aparecer com um conjunto amarelo vibrante — gesto mais ousado que destacou sua presença entre artistas vestidos em grande parte de preto.

Mais tradicional foi a aparição do ator no Governors Awards, em novembro, quando vestiu um blazer preto com gola smoking da Bottega Veneta. O look seguia a lógica de elegância contida e apostava num corte refinado e preciso.

Da mesma forma que aconteceu com Fernanda Torres na campanha de “Ainda Estou Aqui“, grandes grifes passaram a se associar ao nome de Wagner Moura. Antes da corrida internacional de “O Agente Secreto”, o ator —famoso fora do Brasil por séries como “Narcos” e “Ladrões de Drogas”, além do filme “Guerra Civil”— não era visto como um ícone fashion, mas virou um rosto atrativo na visão das marcas.

Para as casas de luxo, vestir um ator premiado ou indicado em eventos de grande visibilidade significa associar seus produtos a prestígio cultural, talento artístico e relevância internacional —ou mais uma forma de transformar roupas em símbolos de status.

A recepção desses looks no Brasil, no entanto, tem sido muito diferente da que acompanhou a campanha de Torres. Durante a divulgação de “Ainda Estou Aqui”, os looks da atriz eram dissecados em detalhes por fãs e pela imprensa. Havia grande expectativa de que ela usasse estilistas brasileiros nos tapetes vermelhos internacionais, uma cobrança que acabou se tornando parte do debate em torno de sua imagem pública.

Com Moura, essa discussão praticamente não existe. O ator alternou grifes internacionais como Margiela, Bottega Veneta, Dior e Zegna sem que surgisse uma pressão significativa para que incorporasse designers brasileiros ao guarda-roupa da temporada. Essa diferença só reforça a ideia de que mulheres que circulam nos tapetes vermelhos costumam ter seus looks examinados com intensidade muito maior do que os homens.

Isso não significa que a moda masculina esteja ausente do jogo simbólico das premiações. Pelo contrário. Em campanhas como a de “O Agente Secreto”, o vestuário se torna ferramenta estratégica. Ao optar por uma alfaiataria contemporânea, pontuada por detalhes discretamente provocativos, Moura projeta uma imagem de sofisticação que não abre mão de destacar a sua personalidade.

No tapete vermelho, assim como nas telas, o artista demonstra compreender que a elegância hoje em dia não depende apenas da roupa escolhida —mas da história que ela ajuda a contar.

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