O nascimento dos blocos afro em Salvador, a efervescência do movimento negro nas décadas de 1970 e 1980, a movimentação em um tradicional mercado a céu aberto, a feira de São Joaquim. Essas e outras cenas registradas ao longo de quase 50 anos pelas lentes de Lázaro Roberto e outros seis fotógrafos brasileiros integram o acervo do Zumvi Arquivo Afro Fotográfico.
A iniciativa gestada e mantida por Lázaro desde 1990 reúne 50 mil imagens e documentos que acompanham importantes momentos da história negra da capital baiana.
Parte desse acervo pode ser visto na exposição em cartaz no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, a partir deste sábado (28). A mostra que leva o mesmo nome da iniciativa apresenta cerca de 400 imagens das lutas, das manifestações culturais e da estética da população negra documentadas pelo arquivo, que é definido por Lázaro como um quilombo visual.
A exposição enfatiza o caráter coletivo do projeto, destacando uma Salvador que vai além do imaginário festivo, destacando uma Salvador que vai além do imaginário festivo, marcada por organização política e religiosidade.
“A exposição é um modo da gente recalibrar o olhar sobre os arquivos, porque na maior parte dos acervos fotográficos no Brasil de pessoas negras aparecem como fotografados, raramente como autores”, afirma Helio Menezes, curador da exposição.
Historicamente, imagens da negritude foram feitas por pessoas brancas que registravam a identidade e a cultura afro-brasileira como “o outro”, como objeto de estudo e como indivíduo exótico.
O Zumvi inverte essa lógica.
Nas imagens feitas por Lázaro e pelos artistas que integram o acervo, a população negra é autora de sua própria narrativa, marcada pelo respeito à identidade das pessoas e às práticas culturais e religiosas.
“Pensando numa dimensão em que pessoas negras são fotografadas sem nome, aqui era fundamental ter nome e sobrenome”, diz o curador.
Helio, Lázaro e o historiador José Carlos, sobrinho do fundador do arquivo e membro da equipe, receberam jornalistas em uma entrevista coletiva no IMS.
O nome Zumvi, conta o criador da iniciativa, surgiu de uma tentativa de criar uma “palavra fotográfica” capaz de sintetizar sua prática. A expressão combina dois elementos: “Zum”, em referência à lente zoom da câmera, capaz de aproximar uma realidade distante, e “vi”, que remete ao olhar e à capacidade da fotografia de preservar acontecimentos históricos a partir de uma ótica particular.
Nascido e criado em um bairro periférico de Salvador, Lázaro conta que sua paixão pela fotografia nasce na década de 1960, quando teve contato com um grupo de jovens criado por um padre recém-chegado à região. Foi no grupo que ele teve contato com diferentes manifestações artísticas e também com militantes do movimento negro. “Foi a fotografia que me deu consciência racial”, diz.
Sempre atuante em momentos como a visita de Nelson Mandela à Bahia (1991) e os primeiros desfiles de blocos afro como o Ilê Aiyê (anos 1970), ele percebeu que seu trabalho não se encaixava nos circuitos tradicionais da arte na capital baiana. Foi quando começou a compreender sua produção como documentação histórica. “Depois de mais de 15 anos na fotografia, percebi que fotografava não para o presente, mas para o futuro.”
Ele começa, então, a catalogar e arquivar suas imagens em uma trajetória marcada por dificuldades materiais e falta de reconhecimento. Ele organiza as quase cinco décadas de fotografias em 16 temáticas, entre elas estão: religiosidade, estética, blocos afro, trabalho, movimento negro e cultura urbana.
Nesses 35 anos, o acervo do Zumvi passou por espaços emprestados e foi, por muito tempo, armazenado na casa de Lázaro, que convivia com o cheiro dos produtos químicos e com a umidade que ameaçava degradar os filmes. Foi apenas em 2024 que o projeto conquistou sua sede, no Pelourinho, a partir de uma parceria com o Ipac (Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia).
Mas o acervo começou a crescer bem antes: a primeira doação foi recebida em 2006. Quando o arquivo recebe os registros feitos por Jônatas Conceição, militante do MNU (Movimento Negro Unificado) e diretor do bloco afro Ilê Aiyê. Lázaro conta que ele entregou as imagens quando já estava em um estado avançado de câncer.
“Eu não podia deixar aquele material se perder. Me preocupava muito com essa memória”, afirma.
Hoje, o Zumvi reúne o trabalho de sete fotógrafos e oferece cursos para jovens negros de escolas públicas que queiram aguçar o olhar fotográfico. O reconhecimento começou a vir a partir de 2018, afirmam Lázaro e seu sobrinho José Carlos. Mas, infelizmente, ainda a passos muito curtos.
Ambos relatam frustração por terem promovido, até o momento, poucas exposições para explorar a riqueza do acervo. O desejo da dupla é que o trabalho do Zumvi cresça e consiga, cada vez mais, se estabelecer como um projeto de memória coletiva.
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