A crise no governo do Rio de Janeiro, culminada com a decisão do TSE, o Tribunal Superior Eleitoral, pela inelegibilidade do ex-governador Cláudio Castro (PL) e a corrida pelo mandato-tampão do governo, causou a mudança de planos na inauguração do MIS, o Museu da Imagem e do Som, em Copacabana.
Ricardo Couto de Castro, presidente do Tribunal de Justiça do Rio, está como governador interino desde a renúncia de Castro, na segunda (23) —ele ficou inelegível na terça (24). Couto de Castro deve convocar em um mês eleições na Assembleia Legislativa do Rio para governador-tampão até dezembro.
O adiamento, ainda sem nova data, foi informado pela Fundação MIS. O governo estadual tem sido procurado desde segunda-feira (23) por email e telefone, mas não respondeu à reportagem.
A construção do MIS é tocada conjuntamente pelas secretarias de Infraestrutura e Obras, Casa Civil e Cultura, além da Fundação Roberto Marinho, parceira na concepção do projeto.
A cúpula do governo planejava uma cerimônia de inauguração no dia 19 de março. Depois, remanejou a abertura parcial para esta quinta-feira (26), com portas abertas ao público no sábado (28) e uma corrida de rua no domingo (29).
Mas segundo pessoas ligadas ao MIS ouvidas pela reportagem, somente a corrida está mantida — batizada de “MIS a MIS”, o circuito vai ter largada na Praça 15, onde fica uma da sedes da fundação, e terminará em Copacabana, no futuro novo prédio.
Pesou para o adiamento o clima de indefinição sobre os rumos do governo. A cadeira foi assumida pelo desembargador Ricardo Couto de Castro na segunda —o estado está sem vice-governador e o ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, afastado em investigação que apura conexão dele com um ex-deputado ligado ao Comando Vermelho, também está inelegível.
A Fundação MIS, vinculada ao governo do estado, já empenhou R$ 117 mil para contratar o maestro João Carlos Martins e dez músicos da Orquestra Bachiana Filarmônica para a cerimônia oficial de inauguração.
O MIS seria inaugurado mesmo com obras ainda em andamento. Um relatório feito após vistoria no dia 4 de março, ao qual a reportagem teve acesso, indica que ainda havia falhas nas saídas de exaustores da cobertura do prédio e problemas na ventilação da cozinha e na luminária.
A Light, concessionária de energia, não havia feito todos os testes no edifício. Os elevadores ainda estavam em ajuste e, segundo a equipe que visitou o prédio, o equipamento estava parando com frequência. O vidro da fachada do lobby ainda estava quebrado.
A história da construção do MIS é o resumo da crise política e econômica enfrentada pelo Rio de Janeiro nas duas últimas décadas. Concebido no endereço desapropriado da antiga boate Help, em 2008, pelo então governo de Sérgio Cabral, o MIS teve obras iniciadas em 2010, com previsão de conclusão em 2012.
Passaram Luiz Fernando Pezão, Wilson Witzel e Cláudio Castro e nenhuma gestão concluiu nem a obra, nem o mandato. Todos os governadores fluminenses eleitos nos últimos 30 anos foram presos ou afastados do cargo.
Durante o período de obras, a primeira empresa responsável pela construção faliu e a outra rompeu com o governo. A construção foi completamente paralisada em 2016 e só retomada em 2021. Àquela altura, parte da estrutura já estava deteriorada, com peças tomadas por ferrugem —o prédio fica na avenida Atlântica, de frente para o mar.
Em abril do ano passado, auditoria do TCE havia observado “erros grosseiros” na retomada das obras. Segundo os auditores, a volta foi feita sem avaliação sobre o estado do canteiro.
Neste mês, novo relatório de auditoria do TCE acolheu a defesa da Secretaria de Infraestrutura e Obras de que os problemas encontrados são consequências da complexidade da obra e do tempo de paralisia, e não são suficientes para serem classificados como dolosos ou resultado de erros grosseiros.
A Fundação MIS, mantenedora de mais de 650 mil itens de 42 coleções, não vai transferir seu acervo para o novo prédio, por risco de deterioração, já que o edifício está sujeito a efeitos da maresia.
Fotografias em papel, gravuras, riscos, filmes, fitas, partituras serão mantidas nas sedes da Lapa e da Praça 15. São coleções particulares de nomes como Jacob do Bandolim, Almirante, Elizeth Cardoso, Nara Leã, Dorival Caymmi e Sérgio Cabral, além de fotografias de Augusto Malta, acervos em som da Rádio Nacional e depoimentos gravados para a posteridade desde 1966.
Parte dos equipamentos eletrônicos que haviam sido comprados em 2015 foram transferidos para a sede da Fundação MIS, na Lapa. Uma vistoria em novembro do ano passado encontrou 1.136 itens, como monitores, projetores e gabinetes de computador. Entre eles, 68 apresentavam defeitos, incluindo painéis de LED que nunca foram instalados, e 21 não foram encontrados.
O prédio do MIS em Copacabana tem oito andares e dois subsolos. O térreo terá um lobby de exposições, uma loja e uma cafeteria —o governo negocia ceder ao Senac.
Os quatro andares acima terão instalações sobre a música popular brasileira, o humor carioca e o Carnaval, além de projeção de imagens antigas do Rio e uma área dedicada à memória de Carmen Miranda. Um dos andares terá restaurante com vista para a praia e o terraço terá um cinema. Os subsolos deverão ser ocupados por uma boate e um teatro.