Falar em crise do cinema brasileiro deve soar estranho à maioria, pois poucos dias atrás estávamos celebrando a carreira de “O Agente Secreto“, de Kleber Mendonça Filho.
Um filme autoral que levou quase 3 milhões de espectadores às salas de cinema e teve quatro indicações ao Oscar. E, pouco mais de um ano atrás, “Ainda Estou Aqui“, de Walter Salles, levou perto de 6 milhões de espectadores aos cinemas, além de ter ganhado um Oscar.
Tanto “O Agente Secreto” quanto “Ainda Estou Aqui” são exceções à regra em uma cinematografia desequilibrada e com forte crise de público.
No Brasil, uma quantidade considerável de filmes é produzida anualmente. Dados levantados pelo FilmeB apontam que, em 2025, 203 longas foram lançados no circuito comercial. Cerca de 55% dos longas que entraram no circuito comercial não foram vistos nem por mil pessoas em salas de cinema.
A maior parte dos filmes produzidos e lançados no país não foi apreciada. Trata-se de um mercado de cerca de R$ 3 bilhões, que acaba sendo desprezado pelo cinema brasileiro.
Para piorar, dada a grande quantidade de filmes produzidos —mais de 400 em 2025, ainda como resultado direto da Lei Paulo Gustavo e também do Plano Nacional Aldir Blanc—, muitos deles não se encaixam nem mesmo em festivais de cinema. Ou seja, muitos longas não são vistos por absolutamente ninguém.
Em tese, o dinheiro investido pelo poder público na produção dos filmes, via Fundo Setorial do Audiovisual, o FSA, deveria ser devolvido. Mas poucos conseguem ser rentáveis e o valor investido não retorna como deveria ao fundo.
São números ruins e que fragilizam o nosso desenvolvimento econômico e cinematográfico. Cineastas, produtores e distribuidores ficam frustrados com tais números do nosso cinema, mas não amargam prejuízo, pois a maioria dos filmes é 100% subsidiada.
Quem paga a conta das salas vazias para o filme nacional são os exibidores que, historicamente, foram negligenciados com relação às políticas estruturais do audiovisual nacional. Já fragilizadas, as salas de cinema não se recuperaram após a pandemia.
Caso as políticas públicas para a exibição tivessem sido pensadas junto à criação do FSA, nós estaríamos, neste momento, lutando em pé de igualdade com os streamings.
Algo foi desenhado na gestão Manoel Rangel, o PAR —Programa Adicional de Renda—, o RECINE e o Cinema Perto de Você, mas nada que pensasse e combatesse, de forma eficaz, os vazios nas salas para o cinema nacional.
No Brasil, não faltam bons filmes, cineastas, produtores, distribuidores e as salas de cinema estão espalhadas pelo país. Temos as condições de fortalecimento e mesmo criação de uma rede voltada ao cinema brasileiro com as salas já existentes. Falta seduzir o espectador, levá-lo ao cinema.
A política pública do audiovisual nacional está concentrada na produção e não na audiência (exibição). Falta um pensamento que organize todos os setores, criando uma política de desenvolvimento equilibrado para a indústria.
Fazer filmes sem pensar no público é um verdadeiro tiro no pé.
Sou favorável ao investimento público em cinema. Sou a favor de financiamento a filmes autorais que não necessariamente serão apreciados por públicos grandes. Sou a favor de que alguns filmes possam ter carreira em festivais, apenas, e não sejam necessariamente rentáveis no circuito comercial. Mas não dá mais para produzir tantos filmes para poucas pessoas verem.
É necessário que produtoras e distribuidoras participem do risco do negócio junto com os exibidores. Acredito ser importante que alguém —não o exibidor— pague a conta das salas vazias quando existe a obrigação de exibir filmes nacionais —cota de tela. Nesse sentido, o retorno do PAR para a exibição é urgente.
É preciso criar metas e definir onde queremos estar daqui a cinco, dez anos. Produzir, produzir, produzir sem uma lógica estruturada não nos levará a lugar algum. É importante criar um pensamento de crescimento sustentado para que os investimentos do estado façam sentido.
Países distintos desenvolveram modelos diferentes e bem-sucedidos. Na Coreia do Sul e na França, há um misto de investimento público e privado. Índia e Indonésia possuem modelos predominantemente privados de investimento. Em todos esses países, existe uma força do cinema local com uma participação significativa no market share.
É preciso encontrar uma forma de conquistarmos o nosso mercado e criarmos um audiovisual independente e fortalecido, sem que se perca o interesse pelo desenvolvimento artístico.
É necessário desenvolver grandes campanhas pelo filme nacional em salas de cinema, além de uma constante formação de público que passa pela alfabetização cinematográfica de professores e alunos. Cinema é uma forma de ver a vida por si só e não deve ser utilizado apenas para dar atenção às demais ciências e saberes.
É preciso encarar nossas fragilidades de frente. Antes que o pior aconteça e mais um ciclo do cinema nacional seja abruptamente encerrado.