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Se em algum momento houve dúvida sobre as consequências na vida real do discurso misógino que permeia o submundo da internet, a morte da policial militar Gisele Alves Santana, 32, veio para cimentar a convicção de que elas podem ser extremas.
Tratado primeiro como possível suicídio, o caso teve uma reviravolta e levou à prisão do marido de Santana, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto. Ele nega ter cometido o feminicídio e sustenta que a esposa teria atirado contra a própria cabeça.
Complicam a versão de Rosa Neto não apenas o fato de a arma encontrada na mão da policial não ser comum em casos de ferimento autoinflingido, mas também a leva de mensagens encontradas no celular dele.
“Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa – com amor, carinho, atenção e autoridade de Macho Alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa”, escreveu o tenente-coronel a Santana, acrescentando que “obediente e submissa” é como “toda mulher casada deve ser”.
O vocabulário é importado diretamente da “machosfera” virtual, uma subcultura online que vem ganhando tração no noticiário. Como escreveram os repórteres Felipe Bramucci e Tol Ramos, há dois ramos desse discurso. A primeira é que o homem deve ter muitas mulheres, riqueza e status.
A segunda defende o ideal da “família tradicional”, com a submissão da esposa ao marido, a obrigação do sexo como parte do “contrato” marital, e a função de provedor masculino. É nessa esfera que parece orbitar o tenente-coronel, segundo as mensagens do relatório da Promotoria.
A misoginia não é uma invenção recente, tanto é que o estupro marital, que acontece entre duas pessoas que têm um relacionamento amoroso, só se tornou crime no Brasil em 2005. Apesar disso, vivemos um breve período, talvez, de achar que odiar mulheres estava se tornando demodé —o que a ascensão da “machosfera” veio para mostrar que era apenas otimismo.
As redes sociais, ferramentas tão importantes para a nova onda de movimentos feministas no século 21, a concretização do Me Too e as discussões sobre consentimento e equidade de gênero, provaram-se também poderosas para o ressentimento que esses avanços geraram.
Nesta terça-feira (24), o Senado aprovou um projeto que equipara a misoginia ao racismo. O texto, da senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), precisa passar pela Câmara dos Deputados para se tornar lei. Como muitas das discussões no Congresso, ele foi impulsionado a uma votação rápida como resposta a casos violentos e midiáticos.
Além do tenente-coronel com sua missão de “macho alfa” que terminou com a esposa morta no chão do apartamento —se foi feminicídio ou suicídio, caberá à Justiça determinar—, outro caso levantou debate sobre misoginia virtual se transferindo para ações concretas.
Vitor Hugo Simonin, 19, um dos acusados de estuprar coletivamente uma adolescente no Rio de Janeiro, se apresentou à delegacia vestindo uma camiseta com os dizeres “regret nothing” (não se arrependa de nada). Um vídeo revelado pelo Fantástico mostrou os jovens envolvidos no crime se vangloriando no elevador do prédio após o estupro.
O que as duas histórias demonstram é que a misoginia encontra nas redes um novo fôlego, novas palavras e novas formas de se organizar e se amplificar —reforçando ideias antigas com aparência de novidade. E quando esse discurso se fortalece e se normaliza, suas consequências deixam de ser abstratas: atravessam a tela e se manifestam na vida real, muitas vezes de forma violenta.