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Broadway no Brasil: veja como é adaptar das peças – 26/03/2026 – Teatro

by Silas Câmara


São Paulo


As histórias da princesa Diana e do ogro Shrek ganham vida por meio de canções dos musicais que estreiam neste ano em São Paulo. As duas produções foram criadas na Broadway, distrito de Nova York conhecido por exibir espetáculos do gênero.

A agenda paulistana tem ainda o musical sobre a vida da cantora Tina Turner (1939-2023), este, original de West End —o equivalente da Broadway em Londres.



Cena do musical ‘Diana – a Princesa do Povo’


Carlos Costa/Divulgação

Os dois distritos se tornaram referência mundial em técnica, criação, produção e popularização dos musicais: são repletos de teatros onde as superproduções acontecem, feitas com grandes cenários, orquestras e artistas que cantam, dançam e atuam.

Referências, criações do estilo chegam ao Brasil há cerca de 50 anos —montagens de “Chorus Line” e “Evita” já fizeram temporada no país nos anos 1980. Mas foi na virada do século que São Paulo viu a frequência de musicais importados aumentar. Na época, recebeu apresentações de “Rent”, “Os Miseráveis”, “O Rei Leão” e “O Fantasma da Ópera”.

“Sinto que a partir dali todo mundo entendeu que o mercado tinha vindo para ficar, e as pessoas poderiam efetivamente ter o teatro musical como uma profissão”, diz Almali Zraik, diretora da área de teatro da T4F (Time For Fun), empresa do mercado de entretenimento que importou algumas das primeiras produções musicais estrangeiras.

Parte do que vinha de fora naquela época eram réplicas, ou seja, reproduções exatas dos espetáculos gringos —do figurino ao cenário. Mas, além desse modelo, é possível trazer versões das histórias estrangeiras com um toque brasileiro, caso das adaptações chamadas de não réplicas.

A decisão depende da combinação de interesses das produtoras nacionais, a respeito do que querem comunicar; dos patrocinadores, sobre em quais temas querem investir; e também do público, baseado nos assuntos em alta.

Hoje, os teatros brasileiros recebem mais peças que não são réplicas exatas da Broadway e de West End. “Eu procuro por temas que tenham algo além de só entretenimento”, diz o diretor Tadeu Aguiar, à frente do musical “Diana – A Princesa do Povo”, que estreia em maio na capital paulista. “A peça fala de uma mulher empoderada que mudou a monarquia britânica.”

Para Gustavo Barchilon, diretor de musicais como “Dreamgirls”, “Titanique” e “Shrek” (prestes a estrear), as peças importadas têm de conversar com a cultura brasileira. “Não adianta fazer exatamente o que foi feito lá fora, porque são públicos diferentes, são culturas diferentes.”

Há um catálogo de espetáculos estrangeiros que pode ser consultado por produtores brasileiros. A negociação ocorre direto com os criadores do musical, no caso das réplicas, ou com escritórios licenciados, no das não réplicas.

O processo se alonga bem mais do que a seleção e a compra de direitos de reprodução. Os valores variam muito: produtores que conversaram com a Folha citaram custos a partir de US$ 5.000 (cerca de R$ 26 mil), mas que podem ultrapassar US$ 100 mil (cerca de R$ 523 mil) com facilidade.

As réplicas são sempre mais caras, mas outros fatores também influenciam no valor —a popularidade da produção, o tempo em que ficará em cartaz e se o espetáculo já ganhou algum prêmio, como o Tony Awards, a principal premiação do setor. Geralmente, o contrato inclui ainda uma cláusula de porcentagem da bilheteria.

Mas não basta pagar. A experiência dos produtores brasileiros em outros musicais da Broadway é importante para a aprovação da solicitação, como uma garantia de que a reprodução terá o mesmo nível de qualidade da versão original.

No caso das réplicas, os criadores participam de todo o processo da montagem no Brasil. Diretor artístico, coreógrafo, diretor musical, diretor técnico, marceneiro e contrarregra, por exemplo, vêm ao país para construir o espetáculo com fidelidade total.

Por isso, a onda de réplicas no início dos anos 2000 foi importante para a produção nacional, segundo Almali Zraik. “Quando a gente começou a trazer as réplicas, trouxe junto um conhecimento técnico e artístico da Broadway que aqui a gente não tinha. A gente tinha artistas fantásticos, mas não a vivência do dia a dia”, diz a diretora de teatro da T4F.

Antes de colocar a mão na massa com elenco, cenário e figurinos, os produtores precisam traduzir o roteiro e as canções do musical. Todo o processo é feito em conjunto com os detentores dos direitos da peça.

Piadas ou rimas podem ser modificadas para fazer mais sentido em português, mas precisam de aprovação dos criadores originais em ambos os casos —réplicas e não réplicas. “O espetáculo tem que comunicar aqui”, afirma Barchilon. À frente de “Shrek”, ele conta que ajustou algumas personagens que surgem na peça, como na parte dos contos de fadas, para serem figuras da literatura e do folclore brasileiro. “Comédia só funciona quando tem identificação com a plateia.”

Essas alterações em textos precisam, obviamente, da aprovação de fora, mais precisamente dos criadores ou escritórios licenciados, em um processo que pode levar de semanas a meses. O musical da princesa Diana, por exemplo, precisou de quatro meses até o OK final da tradução, de acordo com Aguiar.

A etapa seguinte é a produção de cenários, figurinos e escolha de elenco. Réplicas precisam importar esses itens para que sejam iguais aos originais, e os criadores são responsáveis pela escolha do elenco brasileiro.

“Você tem que contratar toda a equipe criativa deles lá fora, indicada por eles. Aí começa a identificar a sua equipe criativa local, que tem que ser aprovada pelos criativos deles”, afirma Zraik.

Também é preciso encontrar cenário e figurino disponíveis para trazer de lá para cá, em aluguel, ou então a produtora deve arcar com a confecção das peças. “Eles tiram as medidas, vão para lá, fazem os figurinos, vêm para cá e fazem a prova”, diz a diretora. Tecidos, cores e detalhes precisam ser exatamente iguais aos do espetáculo original.

Antes da estreia, os criadores acompanham ensaios e sessões para convidados a fim de garantir que cada minúcia do musical esteja fiel ao original —no mesmo patamar dos espetáculos da Broadway e do West End.

“E aí fica nas mãos da equipe brasileira manter esse espetáculo como foi originalmente. Eles vêm assistir de novo de tempos em tempos, porque não pode perder as características”, diz Zraik.

Nas não réplicas, a produtora nacional pode criar versões próprias desses itens e tem liberdade de escolha do próprio elenco.

A burocracia e a rigidez do processo já começam a ser tiradas de letra pelas produtoras brasileiras, que trazem os musicais estrangeiros com frequência ao Brasil.

“É um processo que não é mais nenhum mistério. Se consolidou através desses anos todos”, afirma Claudio Botelho, da Möeller & Botelho Produções, responsável pela vinda de “Cinderella”, “A Noviça Rebelde” e “Rock Horror Show”. Com 24 anos de experiência na área, ele já dirigiu ou traduziu dezenas de peças.

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Atores também passam por seleção e treino

Do lado dos atores, a seleção e o preparo também são necessários. Eles são testados em audições por suas habilidades de canto, dança e atuação.

Myra Ruiz, conhecida por interpretar Elphaba nas três temporadas do musical ‘Wicked’, acumulou cursos que a ajudaram a entrar no mercado: estudou atuação no Lee Strasberg, em Nova York, onde fez também a Professional Performing Arts School, escola técnica que prepara os alunos em artes performáticas, como canto, dança e atuação. Ela passou ainda pela Teen Broadway, em São Paulo, e por aulas de canto e de balé clássico.

Para a atriz, o estudo lhe enriqueceu em técnica, mas não é o único caminho para o teatro musical. ‘A formação me trouxe base para navegar as dificuldades do mercado. Mas não me ensinou tudo’, diz



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