Home » Rita Lee e outros musicais sobre cantores explodem em SP – 26/03/2026 – Teatro

Rita Lee e outros musicais sobre cantores explodem em SP – 26/03/2026 – Teatro

by Silas Câmara


São Paulo


As músicas conhecidas na voz de Gal Costa, Dalva de Oliveira e Ney Matogrosso extrapolaram as plataformas de streaming e agora preenchem teatros em São Paulo. As letras e melodias já na ponta da língua dos brasileiros ajudam a contar a trajetória desses artistas em espetáculos biográficos em cartaz na cidade.

Ainda neste ano, estreia também o musical “Gil, Andar Com Fé“, acompanhado das reestreias de “Rita Lee – Uma Autobiografia Musical“, que volta à capital paulista em abril, e “Tom Jobim Musical“, que chega de novo à cidade em junho.



Renan Mattos interpreta Ney Matogrosso no musical ‘Homem com H’


Adriano Doria/Divulgação

Ainda que compartilhem os teatros de São Paulo com produções trazidas da Broadway e de West End, os musicais que homenageiam artistas brasileiros se tornaram uma tendência entre as produtoras nacionais. Nas peças, as histórias são contadas por meio dos arranjos dos próprios cantores.

O movimento é recente: começou na última década e ganhou consistência há cerca de quatro anos, com a estreia de “Homem com H“, sobre Ney Matogrosso, e dois anos depois, com “Rita Lee – Uma Autobiografia Musical”, dois sucessos de bilheteria até hoje.

Nesse período, também estrearam espetáculos sobre os cantores Tim Maia, Elis Regina, Cazuza, Clara Nunes, Djavan e Martinho da Vila.

Fora dos teatros, a onda biográfica também se propaga. Artistas brasileiros foram temas de exposições recentes na capital paulista, caso da mostra sobre Raul Seixas, no Museu da Imagem e do Som, e da exibição sobre Cazuza, no shopping Eldorado. No cinema da última década, foram lançados filmes de Gal Costa, Ney Matogrosso, Erasmo Carlos e Tim Maia.

A tendência pode ser um reflexo do comportamento dos brasileiros. O Brasil é o país latino-americano com maior consumo de música local, segundo relatório da Luminate, empresa especializada em dados da indústria da música. No primeiro semestre de 2025, cerca de 77,1% das faixas reproduzidas no país eram de artistas nacionais —um número bem acima da média global, de 33,3%.

Essa relação com a música brasileira se reflete no sucesso dos espetáculos sobre artistas do país, nos quais o repertório de canções já é conhecido por boa parte do público.

Conhecer e gostar das músicas interpretadas em uma peça é um dos principais atrativos dessas produções, segundo Júlio Figueiredo, presidente da Sociedade Brasileira de Teatro Musical e diretor da Atual Produções, que traz a São Paulo espetáculos sobre Tom Jobim e Gilberto Gil.

Para Marcio Macena, diretor do espetáculo sobre Rita Lee, o movimento na cena teatral também é fruto de uma vontade da população de se reconectar com o próprio país.

“Nós passamos alguns anos muito distantes da cultura. As coisas não aconteciam, ninguém conseguia produzir”, diz. Por isso, acredita que o momento atual é de nostalgia e orgulho dos artistas brasileiros.

“Quando você vai ver a exposição e o musical, também vê a história do nosso país”.

Combinado a isso está o fator financeiro. À medida que os musicais biográficos tiveram adesão do público, se tornaram um nicho de mercado menos arriscado para produtoras.

“O teatro é cultura, mas é mercado também”, diz Marília Toledo, roteirista e diretora dos espetáculos sobre Gal Costa e Ney Matogrosso. Sócia e CEO da Paris Cultural, braço da Paris Filmes voltado a espetáculos, ela propôs o foco em artistas nacionais quando a empresa foi criada, em 2018.

À época, planejaram lançamentos casados de produções audiovisuais e teatrais, o que aconteceu com os longas e musicais dos dois artistas. “Se o público gosta de musicais voltados para nossa cultura, se está consumindo isso, para os patrocinadores é interessante ter as marcas deles associadas aos nossos produtos”, afirma.

O patrocínio por empresas pode ser direto ou pelo processo de captação de recursos via Lei Rouanet —mecanismo do governo federal que permite que empresas descontem do Imposto de Renda valores diretamente repassados a iniciativas culturais.

O valor é necessário para complementar a arrecadação das bilheterias e, assim, fechar as contas e colocar um musical de pé, dizem os produtores. O investimento em uma peça desse tipo é de alguns milhões de reais. “Conseguir financiar uma produção é um desafio enorme”, afirma Júlio Figueiredo, presidente da Sociedade Brasileira de Teatro Musical e diretor da Atual Produções.

Por isso, ao juntar o interesse do público e dos patrocinadores, os musicais biográficos sobre artistas brasileiros se tornaram uma empreitada segura para trabalhadores da área.

É também uma maneira de ampliar a plateia que assiste a esse tipo de produção, já que atrai fãs dos cantores, para além do público já cativo de teatro musical.

Peças como “Homem com H” e “Rita Lee – uma Autobiografia Musical” mobilizaram uma geração mais antiga de início, segundo os diretores desses espetáculos. Depois de conquistar o público que era contemporâneo aos artistas homenageados, as peças também levaram os mais jovens ao teatro.

“Tem adolescentes que vão porque a mãe e a avó falaram. Vão para conhecer e saem encantados”, diz Marcio Macena, diretor do espetáculo sobre Rita Lee.

Receba no seu email um guia com a programação cultural da capital paulista

Ao mesmo tempo em que ampliam o público dos musicais nacionais e valorizam artistas brasileiros, essas produções indicam a quem trabalha na área que ainda é preciso vincular as obras a algum nome conhecido para que os projetos saiam do papel.

“É um desafio conseguir levar o público para o teatro para ver um conteúdo brasileiro que não seja de uma pessoa muito conhecida, com música conhecida”, afirma Júlio Figueiredo.

Para Titto Gonçalves, da Tomate Produções, o teatro musical nacional está dependente das referências pop, mas esse movimento de mercado comprova a força das histórias brasileiras. A produtora independente foi fundada em 2017 e já colocou em cartaz um musical sobre “Dom Casmurro” e outro com enredo criado a partir de canções da banda Legião Urbana.

Gonçalves afirma que recursos aprendidos com grandes produções de teatro do exterior podem ser usados para contar histórias que se conectam mais com o público daqui. Ele e Marcos Mattje, também da Tomate Produções, relembram que o crescimento dos musicais no país impulsionou a profissionalização do setor, que tem necessidades técnicas diferentes do teatro de prosa.

Além disso, o Brasil tem a herança deixada por obras como “Ópera do Malandro“, “Roda Viva” e “Gota D’água”, de Chico Buarque, e também do teatro de revista, gênero cômico surgido na segunda metade do século 19 que continha quadros musicais no enredo.

“Nossa produção é diferente da americana, é mais visceral”, afirma Tadeu Aguiar, diretor de “Diana, a Princesa do Povo”, musical da Broadway que chega ao país em maio. Mesmo em textos gringos, ele procura dar às produções um tom mais brasileiro.

“Lá os atores usam uma técnica chamada belting para cantar. Aqui, eu preciso de personalidade na voz. Os atores se entregam mais.” Belting é uma técnica vocal que produz sons agudos que se projetam nos teatros.

Segundo produtores, os musicais brasileiros avançaram em técnica nas últimas décadas, especialmente pelo contato com produções da Broadway e de West End que vieram ao país —ampliando a capacidade de expansão do mercado brasileiro.

Peças sobre Cazuza, Barão Vermelho e Ronnie Von estão em fase de captação, ainda sem data para estrear. “É importante celebrar que o nosso povo está interessado em ouvir a nossa história”, diz Marília Toledo.



Autor Original

You may also like

Leave a Comment