A inspiração para “Morramos ao Menos no Porto” foi “uma dessas casas antigas com chão de madeira, que têm barulhos, que têm histórias, que vibram e têm intensidade própria”, disse Francisco Mota Saraiva, autor de 38 anos, em entrevista ao jornal Público. Com o romance, o autor português ganhou o Prêmio José Saramago, um dos mais importantes do mundo lusófono.
Como Saramago —ou como António Lobo Antunes, outra de suas influências evidentes—, Francisco é criador de um idioma literário próprio. O leitor percorre seu romance como quem entra num país estrangeiro. Sente-se a princípio deslocado, sem entender direito o que acontece, e aos poucos é envolvido por uma linguagem poderosa e poética.
“Morramos ao Menos no Porto” é um livro difícil de definir. Há um assassinato na trama, mas não se trata de um romance policial. Vivos e mortos conversam, mas estamos longe do domínio do realismo mágico.
Há crueza e sordidez —”um romance impiedoso”, nas palavras da escritora brasileira Adriana Lisboa, uma das juradas do prêmio—, mas a linguagem é mais alegórica que naturalista. E há um segredo que o protagonista não pode revelar aos demais personagens, mas que o leitor fica sabendo desde as primeiras páginas.
O livro é narrado por António, um homem viúvo que se recusa a enterrar a mulher, Silvina. Convive com o cadáver na sala de visitas, conversa com ele, relembra momentos do passado, limpa as feridas que resultam da inevitável decomposição.
A esse fio narrativo se juntam personagens sombrios e patéticos, como uma parteira que faz abortos em condições precárias e um sargento do Exército que, inconformado com a baixa patente, ostenta medalhas de coronel.
O título vem de uma frase do filósofo romano Sêneca em suas “Cartas a Lucílio”: “Se vivemos em meio às ondas, ao menos morramos no porto”. Serve de epígrafe para o pessimismo do autor sobre a sociedade portuguesa, estoicamente imóvel depois de percorrer os mares do mundo. Uma nau fantasmagórica condenada a afundar reforça essa ideia ao aparecer em meio à trama.
Em entrevistas, Saramago costumava recordar o momento em que encontrou sua voz autoral enquanto escrevia o romance “Levantado do Chão”, uma voz que depois lapidou nas obras-primas “Memorial do Convento” e “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. Mota Saraiva já começa na literatura com uma voz forte, cuja evolução vai ser interessante acompanhar nas próximas obras.
O romance premiado é o segundo publicado pelo autor, que lançou “Aqui Onde Canto e Ardo” em 2024. Na ocasião, recebeu uma distinção de escritor revelação. O romance que levou o Prêmio Saramago é, no entanto, cronologicamente anterior. Ficou na gaveta até que o autor encontrasse o tom certo para sua trama e seus personagens.
“Morramos ao Menos no Porto” é, em última análise, um livro sobre uma dor extrema, insuportável, que não cabe em frases elegantes com sujeito, verbo e predicado, e que se expressa numa linguagem desconexa e retorcida.
Com emoção contida, evitando exageros retóricos, Mota Saraiva encontrou as ferramentas certas para arrancar o chão de madeira de uma casa cheia de barulhos e extrair do porão uma história dilacerante.