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Sertanejos radioativos – 27/03/2026 – Gustavo Alonso

by Silas Câmara

A boa série “Emergência Radioativa”, da Netflix, vem conseguindo bastante repercussão neste mês. Ela aborda o tenebroso acidente radioativo ocorrido em Goiânia. A contaminação começou em 13 de setembro de 1987, quando um aparelho de radioterapia foi encontrado dentro de uma clínica abandonada, no centro da capital de Goiás. Ao ser aberto num ferro velho, causou o maior acidente radioativo do mundo fora de uma usina nuclear.

A série dirigida por Fernando Coimbra tem muitas qualidades e supera em muito a outra produção audiovisual mais famosa sobre o incidente, o filme “Césio 137: o pesadelo de Goiânia”, filmado por Roberto Pires em 1990. Diante do sucesso da nova produção, a internet se mobilizou mais em discutir sobre o suposto lugar de fala dos produtores da série do que sobre a estética do produto final. Em nosso tempo parece que nos tornamos monotemáticos do lugar de fala.

Por que a série não foi filmada em Goiânia? Por que não empregar atores e produtores locais? Por que reproduzir em estúdio cenas que poderiam ser filmadas localmente? O sotaque é fiel ao modo de falar goiano? Afinal, não é só o Nordeste que reclama da estereotipação linguística sudestina.

Hoje em dia, o entusiasmo local parece ser condição final para avaliação das produções. Esse fenômeno aconteceu recentemente com o filme “O Agente Secreto”, completamente rodado em Pernambuco. Em Recife, virou obrigatório adorar e defender o filme de Kleber Mendonça Filho a qualquer custo. Amigos goianos me relataram que em Goiânia acontece o oposto: virou “proibido” gostar da série. E quase nada se discute para além do lugar de fala.

Goiânia poderia ser mostrada na tela? De fato poderia, mas a cidade mudou bastante de lá pra cá. A começar pelo Estádio Olímpico, cujas reformas modernizantes transformaram completamente. Senti falta do Palácio das Esmeraldas, sede do poder estatal e cenário frequente na série, sem nenhuma referência ao original.

No caso de “Emergência Radioativa”, a escolha de se filmar em São Paulo foi acertada? Aparentemente sim, afinal os produtores da série escolheram muito bem os lugares substitutos, mantendo o padrão de centro e periferia das cidades brasileiras, que não são assim tão diferentes em cidades modernas como São Paulo e Goiânia.

Um roteiro bem amarrado, boas atuações e mescla de referências cinematográficas sempre dão bons resultados. Em “Emergência Radioativa” chama a atenção a boa construção dos personagens atingidos pela radiação. Eles não são retratados apenas como figuras passivas, como meros alvos do acidente. São personagens de fato, com comportamentos distintos diante da tragédia. Suas ignorâncias, às vezes amplificadas em outras narrativas, não são retratadas como fruto de sua condição social, mas como uma realidade de todos nós brasileiros, que nunca tínhamos vivido algo semelhante.

Curioso é que a reclamação dos goianos tenha como alvo os produtores paulistas da série, mas jamais seus conterrâneos de Goiás. Até hoje não há em Goiânia um museu ou memorial sobre o maior acidente radioativo do mundo. Alguém pode se perguntar: mas por que um povo deveria se associar a tamanho evento traumático? Ora, passado o trauma, é chegado o momento de rememorar a tragédia para que algo assim não ocorra de novo.

Goiás tem grandes lacunas em relação à institucionalização da memória. A capital do estado é nacionalmente reconhecida como a capital da música sertaneja no Brasil. E tampouco há um museu do gênero musical mais popular do país, lugar de memória que poderia ajudar a estimular o turismo regional e nacional.

Ainda que a música sertaneja seja associada à direita, não há pacto capaz de cristalizar uma homenagem. Os governos estadual, nas mãos de Ronaldo Caiado (PSD), e municipal, com Sandro Mabel (União Brasil), não conseguem viabilizar o reconhecimento à música que supostamente é a de seu público eleitor. Parece que a música sertaneja é radioativa aos governantes de bravata, que na prática pouco fazem pela preservação da cultura em sua própria região.

Já houve discussões sobre a criação de um memorial do incidente de Césio 137 na Assembleia local. Mas depois de quase 40 anos do incidente, nada foi construído. Aí não adianta chorar quando olhares externos dão suas versões sobre o ocorrido. Se o próprio povo não se mostra ativo em contar sua própria história, outros irão contá-la.


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