A China se tornou o segundo país do mundo a recuperar o primeiro estágio de um lançador de porte orbital nesta sexta-feira (10). É uma vitória não só na competição com os Estados Unidos pela liderança na exploração espacial, mas também na corrida para a Lua.
O foguete em questão é o Longa Marcha 10B, desenvolvido pela Casc (empresa estatal aeroespacial chinesa), que decolou do centro de lançamento de Hainan. Após a separação dos estágios, o primeiro deles desceu e realizou um pouso suave numa plataforma no mar, equipada com redes.
Foi a primeira vez que um estágio de foguete foi recuperado com este método. Seu porte é comparável ao Falcon 9, da SpaceX, que pousa com um trem de pouso. O sistema chinês, de ganchos e redes, dispensa a presença de equipamento específico para a descida. Vídeo do procedimento foi divulgado e a aparência é de total sucesso.
Esse foi também o primeiro voo do Longa Marcha 10B, um variante da família Longa Marcha 10, com a qual a China espera realizar suas missões lunares tripuladas nos próximos anos. Uma boa comparação é pensar no Longa Marcha 10 como um equivalente do Falcon Heavy, e os variantes 10A e B como equivalentes do Falcon 9. Em ambos os casos, a principal diferença é que o primeiro estágio do Heavy (bem como do 10) é composto de três núcleos (como se fossem três foguetes paralelos), enquanto o 9 (bem como 10A e 10B) tem um núcleo só. Todos eles têm dois estágios.
A principal diferença entre o 10A e o 10B está no segundo estágio: o primeiro usa motores movidos a querosene e é voltado para missões tripuladas, e o segundo, com motores movidos a metano, é voltado para transporte de carga.
O ponto-chave é que um teste bem-sucedido do 10B, como o que ocorreu agora, com o funcionamento pleno dos dois estágios, abre caminho para um voo do 10A, que deve ser usado, possivelmente ainda neste ano, para levar a nova cápsula chinesa, Mengzhou, à órbita terrestre. Esse primeiro voo será sem tripulação, mas o seguinte já pode ser tripulado.
É com essa cápsula (que já teve um teste de aborto em voo bem-sucedido) que os chineses pretendem enviar seus taikonautas à Lua. É o equivalente chinês, mais modesto, da Orion americana.
O teste também é relevante para um futuro voo do Longa Marcha 10 –é verdade que seu núcleo triplo muda o perfil do veículo, mas são três partes de um sistema já totalmente testado em voo. Com o Longa Marcha 10 e a Mengzhou testados, os chineses já poderiam fazer uma missão do tipo Artemis 2, de contorno da Lua. A alunissagem tripulada, que a China quer realizar antes de 2030, depende do lançamento de dois foguetes, um com a cápsula, e outro com o módulo de pouso.
É um contraste com o programa americano, que usa tecnologias dissimilares para as diferentes partes da missão. Enquanto o foguete SLS já foi testado e se mostrou apto, ainda há dúvidas quanto ao foguete Starship, que levará o módulo lunar da SpaceX. A alternativa é o módulo Blue Moon Mark 2, da Blue Origin, ainda em desenvolvimento, que depende do retorno aos voos do foguete New Glenn.
Saindo da Lua e pensando no contexto mais amplo da exploração espacial, a China dá um passo ainda maior com seu foguete reutilizável. A Casc se torna o terceiro ente a realizar o feito, após as americanas SpaceX e Blue Origin. E a quarta pode estar a caminho, com a startup chinesa LandSpace e seu foguete reutilizável Zhuque-3. No primeiro voo, em dezembro de 2025, houve falha na recuperação do primeiro estágio. Mas a companhia deve tentar novamente em breve.
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