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O trilhão de Elon Musk é pago com o sacrifício de Marte – 14/06/2026 – Mensageiro Sideral

by Silas Câmara

Elon Musk agora é o primeiro trilionário do planeta Terra. E tudo que ele precisou para isso foi abrir mão de Marte –em essência a decisão que o empurrou a essa marca histórica (e francamente apavorante) acaba por ejetar a própria razão de ser de sua companhia mais revolucionária.

Podemos discutir o quanto era puro marketing, mas, desde sempre, Musk declarou que o objetivo final da SpaceX, sua empresa de foguetes, era tornar a humanidade uma civilização multiplanetária, com o estabelecimento de uma colônia no planeta vermelho.

A própria arquitetura do Starship, superfoguete que agora se torna o principal motor do crescimento dos negócios da empresa, foi pensada para isso, com o uso de metano como propelente –molécula de fácil obtenção em Marte, combinando o hidrogênio do gelo de água que existe sob a superfície com o carbono do dióxido de carbono que compõe a atmosfera.

Também era por isso, segundo Musk, que a SpaceX jamais cogitou abrir seu capital. A proposta de investir bilhões de dólares numa colônia marciana não oferece retorno do investimento, e seria difícil justificar esses gastos aos demais acionistas só porque o majoritário quer fundar uma cidade marciana.

Isso agora mudou. A SpaceX entrou oficialmente no mercado aberto de ações na Nasdaq e já teve uma subida meteórica de 20% na largada, tornando Musk ainda mais impensavelmente rico. O que é menos visível, muitos dos funcionários do alto escalão da empresa também enriqueceram nessa, alguns potencialmente bilionários, por conta de um programa interno que os recompensava com participação acionária.

Da noite para o dia, a empresa levantou US$ 75 bilhões com a venda dos seus papéis, uma quantia que não pode ser desprezada. Só na largada, a captação trouxe o equivalente a dois anos e meio do orçamento total da Nasa.

A contrapartida vem com as regras que se aplicam às empresas de capital aberto –a gestão tem por dever perseguir as oportunidades mais lucrativas. Isso certamente envolve o uso do Starship para seguir expandindo a megaconstelação Starlink, que fornece internet rápida e de baixa latência em escala global, e iniciar a construção de data centers orbitais voltados às demandas crescentes da inteligência artificial.

Claro que a empreitada de retorno à Lua, tendo a Nasa como cliente, continua sendo vantajosa e pode oferecer uns bilhões aqui e ali, enquanto o governo americano espera, em um só movimento, superar a China numa corrida lunar e criar um novo mercado, a ser povoado por agentes públicos e privados, envolvendo a exploração do satélite natural terrestre.

Marte deve seguir formalmente como objetivo da SpaceX, e houve até um anúncio recente de um possível sobrevoo tripulado do planeta vermelho financiado por um investidor privado, mas deixa de ser o norte da companhia. Agora, o objetivo tem de ser aquilo que ela realmente faz melhor –ganhar dinheiro, em cima de uma indústria que por tempo demais acreditou que viver de caros e esparsos contratos governamentais era o único caminho possível.

É possível que uma colonização de Marte ainda venha por aí, mas será muito menos um objetivo, e muito mais uma consequência do desenvolvimento das tecnologias necessárias à empreitada. A SpaceX tem as ferramentas. Com o capital aberto, ela precisa também de um racional que torne o projeto lucrativo para de fato mergulhar nele. Não deve acontecer tão já.

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