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Os Satyros criam distopia sobre compra e venda de memórias – 26/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Memórias estão à venda. Os compradores querem experiências exclusivas e sensações que nunca sentiram antes. Os vendedores, por sua vez, estão dispostos a garantir a satisfação de seus clientes. Por isso, esses profissionais fazem atividades que os contratantes não podem realizar por motivos físicos ou emocionais. Depois, narram a eles o que sentiram de forma minuciosa. Desde o frio na barriga durante um salto de paraquedas até o prazer provocado por uma relação sexual.

A história parece roteiro de filme, mas é um caso real descoberto por artistas da companhia teatral Os Satyros, em 2014. À época, a trupe esbarrou em um grupo de São Paulo que contratava pessoas para que elas tivessem determinadas experiências e narrassem depois como foram esses momentos. Era uma forma de amenizar o isolamento provocado pela velhice ou por problemas de locomoção.

Mais de uma década depois, esse sistema de compra e venda de memórias inspira agora a peça “Quase Todos”, em cartaz no Sesc 24 de Maio, na capital paulista.

Escrita por Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, fundadores dos Satyros, o espetáculo apresenta ao público a Calínia Corporation, empresa especializada em comercializar memórias. O empreendimento foi criado por Jacinto, personagem vivido por Diego Rifer. “Memória não é só lembrança. É dinheiro, ativo, capital”, diz o empresário durante a encenação.

Para conceber o texto, García Vázquez diz ter estudado os diferentes aspectos que compõem as recordações. “Busquei entender como elas são construídas e manipuladas, seja por motivos pessoais, seja por interesses políticos.”

Na peça, um político recorre à empresa de Jacinto para manipular a memória dos eleitores a seu favor. “Jair Bolsonaro, por exemplo, quis reconstruir a lembrança sobre a ditadura militar, dizendo que ela nos salvou. Essa é uma narrativa feita a partir de memórias”, diz o dramaturgo.

Grandes corporações de tecnologia, as chamadas big techs, também instrumentalizam a memória para gerar lucro e engajamento. Evidência disso acontece quando as redes sociais lembram as pessoas sobre o que elas estavam fazendo anos atrás.

“A gente vende praticamente a preço de banana as nossas memórias para empresas como X e Facebook. No fundo, o que retratamos na peça é uma situação que domina as nossas vidas.” Atualmente, há quem comercialize os próprios dados para que empresas treinem ferramentas de inteligência artificial.

O espetáculo, aliás, fez um uso intensivo de IA para conceber a trilha sonora e o jogo de luzes, formado por lasers que criam uma atmosfera futurista. A presença da tecnologia contrasta com o caráter manual das flores de crochê presentes nas roupas dos personagens.

São trajes que misturam itens contemporâneos a elementos que remetem às décadas de 1960 e 1970 —período no qual se passa a primeira parte da produção. Nesse momento, o público é apresentado à infância de Jacinto, o dono da empresa que comercializa memórias.

Ao lado dos quatro irmãos, ele cresceu num lar marcado por pobreza e violência. Vivido por Gustavo Ferreira, o patriarca dessa família tem problemas com álcool, dependência que Jacinto vai desenvolver na vida adulta.

Em uma cena, vemos as irmãs dele escondidas em um quarto, rezando para que o pai pare de agredir a mãe, personagem de Márcia Daylin.

Em um outro momento, ela decide servir às crianças pétalas de flores para suprir a ausência de alimentos na geladeira, propondo um faz de conta para mascarar a fome. Essa história foi inspirada na infância de Ivam Cabral, que assina a dramaturgia do espetáculo ao lado de García Vázquez.

“Eu venho de uma formação muito pobre e vivi muitas coisas próximas a essa cena. Diante da dificuldade, minha mãe inventava essas histórias”, diz o artista, que também encarna Lírio, um dos irmãos de Jacinto. A família é formada ainda pelas irmãs Camélia e Gardênia –vividas respectivamente por Julia Bobrow e Tai Zatolinn.

Não foi só Cabral que emprestou memórias para compor a narrativa. Os outros atores também veem na peça experiências que eles viveram em suas vidas.

“Muitos de nós passamos por situações parecidas e próximas daquilo que a peça retrata”, diz Cabral. Para ele, recorrer ao drama familiar foi uma forma de tornar mais palatável um enredo de contornos distópicos.

“A gente queria pôr muita humanidade na história e um contexto que pudesse emocionar o público para mais tarde introduzir a venda e compra de memórias.”

Ao jogar luz sobre um núcleo familiar, a encenação reflete também sobre o esgarçamento das relações entre pais e filhos. “Para mim, isso tem a ver com esse momento do tecnocapitalismo, que é marcado pelo isolamento”, afirma Cabral.

Isso fica evidente quando a matriarca da família morre tendo ao lado apenas um de seus quatro filhos. Afastados há décadas uns dos outros, eles descobrem sobre a morte pelas redes sociais. “A solidão contemporânea não é mais a ausência de contato. É o excesso de mediação. Tudo está sendo transmitido via rede social.”

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