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Helmut Lang diz que a moda está dominada por coporações – 30/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Após quarenta anos de seu surgimento, Helmut Lang permanece como o único exemplar de sua espécie a revolucionar a moda a partir da busca pela própria voz —pena que, agora, extinta.

Poucos designers podem ser mencionados como revolucionários capazes de alterar o curso da moda contemporânea sem recorrer à grandiloquência. Mais raros são aqueles que transcendem a roupa. Helmut Lang é um deles. Sem monumentalidade, sem declarações cáusticas.

Em meados dos anos 1980, esse austríaco enigmático e corajoso, nascido em Viena em 1956, deu voz a uma geração intelectual e criativa que desprezava a opulência ornamental da vestimenta daquele tempo.

“Eu não buscava equalizar o gosto ou o espaço criativo. A percepção de muitos abriu interpretações diferentes nas quais eu nunca havia pensado. O mais importante era e é, antes de tudo, o aspecto criativo; o trabalho encontrará seu público”, diz Lang.

Foi ele quem desafiou clichês —da imagem do que uma mulher deveria vestir, de como um homem deveria se comportar— e ofereceu a esses jovens um guarda-roupa essencialista, capaz de equilibrar o improvável: casual e formal, subversivo e elegante.

Suas criações eram austeras, progressistas, transgressoras de gênero —entrecortadas por uma sensualidade perceptível nas transparências, cortes enviesados e abotoamentos estratégicos, sem recorrer ao erotismo explícito. Até os arreios de “bondage” e alças de sutiã ganharam nova elegância em parkas, calças e casacos de alfaiataria.

Mas isso é uma nota de rodapé. Lang não apenas redefiniu os códigos de estilo —ele remodelou o próprio sistema. “Não percebi que isso estava acontecendo, nem quando. Apenas fiz o que sentia que queria expressar com meu trabalho da melhor maneira possível e entreguei ao público para sua consideração”, afirma.

Da arquitetura às polaroides de backstage, “tudo é igualmente importante nesse contexto”, diz ele, o que, em alemão, se denomina Gesamtkunstwerk, ou “obra de arte total”. Essa lógica se reflete na exposição “Helmut Lang Séance de Travail 1986–2005 / Excerpts from MAK Helmut Lang Archive”, em cartaz no MAK, em Viena, até 3 de maio. Não se trata de uma típica exibição de moda, mas de um registro do seu pensamento interdisciplinar e da sua sensibilidade cultural.

Olhando para essa trajetória, ele sente que tornar possível o que antes parecia inconcebível faz parte de sua vida. “Ainda procuro o próximo novo, o impossível, o impensável. Acho que isso se chama esperança”, afirma.

Em 1986, sua inventividade encontrou solo ideal. “Paris foi inteligente o suficiente para reconhecer isso no início dos anos 1980, o que a consolidou como o lugar multicultural mais importante e interessante para a moda, ao abraçar todas as geografias”, diz.

Dois anos após seu desfile de estreia, Lang substituiu a passarela clássica elevada pela performática Séance de Trabalho, ou “trabalho em andamento”, reunindo roupas masculinas e femininas em uma dinâmica natural e imprevisível entre modelos e amigos de diferentes origens, gêneros e idades.

“Nada está realmente ou quase nunca terminado dentro de um prazo ou de uma estação, e a vida é um corpo contínuo e em evolução, no qual passado, presente e futuro se alinham simultaneamente.”

Ao redor de Lang gravitava uma miríade de modelos que rejeitavam a teatralidade da época. Stella Tennant e Kirsten Owen chegavam a ser alvo de gritos de fotógrafos para que se voltassem às câmeras. Kate Moss e Naomi Campbell deixavam o glamour pomposo para as passarelas da Versace.

Ao lado de Elfie Semotan, fotógrafa e amiga de Lang, os modelos repetiam suas voltas nos espaços brutos do Espace Commines, em Paris, e mais tarde no Dia Center for the Arts, em Nova York. Essa tribo se fundia à experiência vivida, onde moda, arquitetura, som e público se combinavam.

“Nova York nos anos 1990 tinha uma sensação aventureira e crua, que a Europa havia perdido naquele momento, e eu estava intrigado em explorar o novo e o desconhecido, em vez de me acomodar e avançar na segurança do conhecido”, acrescenta.

Palavras que ressoam com a mesma intensidade do que entregou ao mundo ao chegar ao seu estúdio na 80 Greene Street, no Soho. No final daquela década, Lang colocou o nome de sua etiqueta no topo de mais de mil táxis de Manhattan para anunciar seu novo website e campanha, transferiu seu desfile de primavera e verão de 1999 para setembro —invertendo o ciclo do calendário de moda que, antes disso, finalizava nos Estados Unidos.

Ao entrar nas boutiques de Helmut Lang, a primeira coisa que se via era uma escultura, não um produto. A partir de 1997, instalações de LED de Jenny Holzer se tornaram centrais, consolidando o diálogo iniciado ainda na Bienal de Florença de 1996.

Tratava-se de “respeito e amor mútuos, e o desejo de criar juntos e compartilhar espaço sem julgamento”, diz Lang. A parceria se estendeu ao ano 2000, com uma campanha de perfume, na qual a publicidade tradicional foi substituída pelo texto ousado de Holzer, “I smell you on my Skin”, eu sinto o seu cheiro na minha pele.

Ainda assim, a moda era “uma chance de sobreviver, que deveria ser apenas uma ocupação temporária”, afirma Lang, que decidiu deixar a indústria definitivamente em 2005, quando o último exemplar de sua espécie se tornou extinto, para dedicar-se às belas artes.

“Eu me aproximava dos cinquenta, e a moda nunca foi minha vocação original. Sempre me senti um pouco desconfortável com as expectativas ao redor e tinha envolvimentos intensos com a arte, a arquitetura e outros campos para ampliar e completar meu potencial criativo.”

Ele já pressentia que o cenário caminhava em uma direção que não o interessava: “Não me cabe julgar uma prática que deixei para trás, mas, no que diz respeito ao que acontece hoje, tornou-se dominado por corporações —e isso tem consequências”.

Em tempos em que as cariátides da indústria vêm sendo corroídas a serviço do consumo, os criadores influenciados por Lang seguem sustentando esses alicerces, impedindo seu desmoronamento. Enquanto isso, de seu estúdio em Long Island, distante dos alvoroços e das crises climáticas da moda, ele diz: “Sou grato por não ter que desembaraçar esta Medusa”.

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