“Um em cada três brasileiros não acredita que o homem foi à Lua” —é o que diz uma pesquisa divulgada no domingo (29). De acordo com o levantamento, realizado nos dias 9 e 10 de fevereiro deste ano pelo instituto Datafolha, 33% dos brasileiros afirmam acreditar ser mentira que humanos tenham ido à Lua em algum momento da história. Outros 9% disseram não saber, enquanto 58% afirmaram ser verdade.
Dentre os respondentes que completaram o ensino superior, o número de incrédulos cai um pouco, mas ainda assim é estarrecedor: 19% dos graduados em universidades dizem acreditar que o homem não foi à Lua. Igualmente chocante é o percentual de incrédulos entre os que ganham mais de dez salários mínimos, que chega a 20%.
Caso você, caro leitor ou cara leitora, se encontre dentro deste não tão seleto grupo de céticos da ciência, gostaria de usar este espaço para esclarecer: sim, o homem foi à Lua. Digo “homem” e não “ser humano” na tentativa de ser o mais factual possível, a fim de não deixar margem para debate ou dúvida. Afinal, é verdade que nenhuma mulher até agora fez parte de alguma das nove missões já realizadas para a Lua.
Sim, o homem foi à Lua nove vezes. Respire e reflita por um momento, deixando a informação assentar no seu organismo. Ao todo, 24 Homo sapiens tiveram o privilégio de ver de pertinho as crateras lunares. O que não faltam são provas, pode procurar. Há registros em vídeo, filmagens em 16 mm e transmissões de TV em todas essas excursões. O material inclui vistas da Terra, operações do rover lunar e caminhadas dos astronautas, como aquela amplamente divulgada em que Neil Armstrong, ao pisar pela primeira vez em solo lunar, disse a célebre frase: “Um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade”.
Talvez estes dados lhe convençam, provavelmente não. Há coisas que são mesmo difíceis de acreditar. Eu mesma me encontro incrédula diante da vossa dificuldade de assimilar a verdade de um fato tão abundantemente documentado. Mais ainda com o fato de que o grupo de incrédulos a respeito das missões espaciais aumentou nos últimos sete anos.
Na minha cabecinha tão crente na ciência, seria plausível que, diante de tantos avanços tecnológicos testemunhados nos últimos anos —de carros que andam sozinhos a canetas emagrecedoras—, menos gente cairia nessa balela conspiracionista de que o homem jamais foi à Lua. Mas, infelizmente, não é o caso. De acordo com uma pesquisa realizada também pelo Datafolha em 2019, 1 em cada 4 brasileiros não acreditava nas missões à Lua (cerca de 26% dos entrevistados), ao passo que hoje 1 em cada 3 duvida das missões.
Fico incrédula com a incapacidade de parte significativa da população brasileira de acreditar nas viagens à Lua enquanto acredita piamente que não houve ditadura, que cloroquina previne Covid, que há escola distribuindo mamadeira de piroca e que Flávio Bolsonaro é da direita moderada.
Nesta semana, a Nasa se prepara para mais uma missão: a Artemis 2, cujo lançamento está previsto para abril. O foguete SLS, com a cápsula Orion, levará quatro astronautas em um percurso ao redor da Lua. Entre eles estarão Victor Glover, de 49 anos, e Christina Koch, de 47 anos —respectivamente o primeiro homem negro e a primeira mulher numa missão lunar, uma prova de que avançamos como sociedade.
Resta saber se os incrédulos fanáticos por teorias da conspiração verão a Artemis 2 e a diversidade de sua tripulação (mesmo com a Nasa sob o comando de Trump) como prova de que o ser humano foi, sim, à Lua ou apenas mais um exemplo do que consideram propaganda progressista, como a vacina ou a luta contra a misoginia.
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