Todos estão perdidos em um labirinto de traições. Jerry teve um caso de sete anos com Emma, a mulher de seu melhor amigo. O marido traído, no entanto, está longe de ser uma vítima. Robert, afinal, acumula várias relações extraconjugais. Essa história, porém, é muito mais do que uma teia de infidelidades.
Escrita pelo dramaturgo britânico Harold Pinter, a peça “Betrayal” é um quebra-cabeça das relações humanas e um mosaico das violências que se escondem sob a aparente tranquilidade do cotidiano. No espetáculo, o palco vira um campo minado, onde poder, desejo e vaidade fervilham até explodir em embates de elevada temperatura dramática.
Essas relações incendiárias estarão em cena a partir desta semana no Teatro UOL, na região central da capital paulista. O espetáculo tem como base o texto do dramaturgo traduzido por Luiz Frias, publisher da Folha e presidente do Conselho de Administração do Grupo UOL.
A produção traz no elenco Luiza Curvo, Leonardo Bricio e Diego Machado, que vivem, respectivamente, Emma, Jerry e Robert. A montagem ainda tem Miranda Diamant como uma garçonete.
A produção começou a ganhar forma há 15 anos, quando Curvo viu a peça em Londres. À época, ficou surpresa com a estrutura narrativa nada convencional, em que a história do triângulo é contada de trás para frente.
A peça começa em 1977, com o reencontro de Emma e Jerry após o caso entre eles ter se encerrado. Da paixão frustrada, a história retrocede até chegar a um passado em que tudo parecia reluzente e promissor. Com isso, é como se Pinter fizesse uma autópsia das relações amorosas, investigando como elas chegam ao fim.
“A gente vai encaixando as peças até entender como tudo começou”, afirma Curvo. “Isso provoca uma empatia infinitamente maior em quem está vendo, porque o espectador pode completar pausas, lacunas e silêncios.”
Quando enfim consegue montar esse quebra-cabeça, o público se depara com uma fotografia um tanto sombria do comportamento masculino. Ao longo da encenação, Emma se vê alvo da misoginia do marido e do amante.
Segundo Curvo, ouvir os comentários com esse teor presentes no texto foi desafiador. “Em alguns ensaios, lembro que as minhas pausas eram muito maiores do que o normal porque eu não tinha fôlego para responder a uma coisa tão brutal”, afirma ela.
Quem também precisa lidar com o tratamento pouco lisonjeiro de Jerry e Robert é a garçonete interpretada por Diamant. Durante um atendimento, os dois a encurralam com sua grosseria.
“Embora fique de cara fechada e deboche deles, ela não faz mais nada a respeito”, diz a atriz, para quem foi um desafio ocupar esse lugar de passividade diante da violência. “Ainda assim, a situação da minha personagem não chega aos pés do que a Emma enfrenta.”
A personagem de Luiza Curvo se vê pressionada de todos os lados. Um dos momentos de maior voltagem emocional acontece quando o marido começa a suspeitar da traição. Como quem não quer nada, ele fala sobre uma carta que Jerry enviou a Emma. “Você está tremendo. Está com frio?”, pergunta Robert, embora já saiba o motivo dos tremores.
A traição, afinal, já não é um segredo. Ainda assim, o personagem usa da manipulação emocional para forçar a mulher a admitir a infidelidade. Não há escândalo, apenas polidez fria e cortante.
“Ninguém toca em ninguém, mas é quase uma sessão de tortura”, afirma Lavínia Pannunzio, diretora do espetáculo. “Robert é um personagem narcisista. Ele bate e, ao mesmo tempo, acolhe.”
Jerry não escapa dessa influência ao mesmo tempo inebriante e doentia. Ao saber que o caso não é mais um segredo, ele entra em desespero com a perspectiva de perder o melhor amigo. Diante da amizade dos dois, Emma se torna uma figura quase lateral.
“Os homens se protegem, enquanto a mulher fica sobrando num buraco de desamparo. É quase como se ela fosse um objeto na mão deles”, diz Pannunzio.
Os conflitos acontecem em torno de um sofá de quase seis metros. O elemento cênico é uma espécie de termômetro que mede a proximidade emocional dos personagens ao longo da história. Quando Jerry e Emma estão no auge da paixão, eles se sentam lado a lado. Quando a relação começa a ruir, ficam distantes.
Esse item, aliás, é um dos poucos elementos cênicos da peça —uma produção tão austera e minimalista quanto a dramaturgia de Harold Pinter. Um dos maiores autores do teatro mundial, ele se notabilizou por narrar a vida cotidiana por meio de silêncios que parecem prenunciar a violência.
“Pinter descreve um buraco social enorme”, afirma a diretora. “Na dramaturgia dele, a questão civilizatória deu muito errado. Todos são muito perversos.”
A violência pode ser vista em peças como “A Saideira”, “O Zelador” e “Festa de Aniversário” —textos que integram um portfólio formado por mais de 30 peças escritas entre 1957 e 2000.
Essa produção profícua valeu a Pinter, em 2005, o Nobel de Literatura. “Em suas obras, ele revela o abismo que se esconde por trás da tagarelice cotidiana e arromba as portas fechadas da opressão”, disse à época a Academia Sueca, responsável pela láurea.
Em “Betrayal”, esses abismos se materializam principalmente por meio da atuação de Diego Machado, o intérprete de Robert. “A minha preocupação ao construir esse personagem foi pôr verdade para que a violência e o sarcasmo não virassem algo caricato.”
Por isso, o artista diz ter pensado nas fraquezas que a arrogância pode mascarar. “Quis entender como a postura dele pode ser um mecanismo de defesa”, diz o ator, acrescentando que a dramaturgia de Pinter segue atual. “Ele põe a gente diante de uma rede de autoengano, mentira e violência que existe até hoje.”
Opinião parecida tem Leonardo Bricio, que dá vida a Jerry. “As pessoas que forem assistir à peça poderão refletir de alguma maneira sobre episódios da própria vida e sobre o que poderiam ter feito diante da infidelidade”, diz o artista, para quem essa questão é universal. “Quem nunca traiu ou foi vítima de uma traição?”