O melhor de “O Drama” é seu início, desde o encontro entre Charlie (Robert Pattinson e Emma (Zendaya). O estilo é leve e ágil, como se acompanhasse certa felicidade em torno do casal, que não demora muito pretende mesmo se tornar um casal.
É um momento de notações bastante sensíveis, como Charlie entender que uma das razões de se ter apaixonado pela garota foi seu modo de rir. Com efeito, as paixões podem nascer de traços que talvez outras pessoas nem notem, mas que por qualquer razão chamam a atenção de outro. No caso de Emma, Charlie se sente atraído pelo seu modo de rir, que no entanto reconhece excessivo, um tanto estranho.
Já namorados, a caminho do casamento, num desses encontros entre amigos, que Emma conta o que fez de pior em sua vida: planejou atacar a escola em que estudava, promover um morticínio e depois se matar. Não fez nada disso, é claro, mas o que diz é o bastante para deixar transtornada a amiga Rachel, que não hesita em tomá-la por psicopata.
Rachel vive um trauma bem pessoal com esse tipo de massacre: uma prima, vítima de um ataque dessa natureza, tornou-se paraplégica por conta de um deles.
Esse é o momento em que o filme talvez se torne mais próximo de uma plateia dos EUA —onde eventos dessa natureza são tristemente frequentes. Aqui tenderíamos mais a chamar de psicopatas os responsáveis por, por exemplo, assassinatos de mulheres _também tristemente frequentes.
O que cobre a palavra psicopata é uma questão, talvez seja mesmo o drama de “O Drama”. Emma explica que isso se deu em sua adolescência, num momento em que sofria bullying violento na escola. Como não levou o plano adiante, tudo se limitou a uma espécie de devaneio macabro, que ela acabou sublimando em seguida, ao entrar em um movimento antiarmas e até mesmo, em seguida, jogar o rifle do pai (que era policial) fora.
Curiosamente, Rachel praticou uma maldade, também nos tempos de escola, de que não teria motivos para se orgulhar. Mas, tudo bem. O problema do filme não é exatamente esse.
E sim o fato de que o uso da palavra “psicopata” dar a impressão de que ocupa um lugar central na sociedade americana. Lançada em direção a uma pessoa, torna-se um estigma.
Talvez estejamos num momento em que a sociedade estadunidense passou a psicologizar certos eventos de maneira excessiva, talvez maníaca, pode ser.
O problema de “O Drama” é que certo mal-estar difuso na sociedade torna-se uma maldição na vida de Emma que se explica muito mal dramaticamente.
Afinal, Emma cometeu um crime imaginário: não matou ninguém até onde se sabe. Como o caso de adolescência é evocado, podemos até compreendê-la: o bullying que sofre pode ser muito doloroso. Assim, pensar numa vingança coletiva é algo compreensível, quando a vítima não parte para o ator, bem entendido.
Rachel não pensa assim, e até tem motivos pessoais para isso. No entanto, ela não está sozinha. O estigma lançado pela expressão “psicopata” parece se difundir com certa rapidez. Rachel não está sozinha, várias pessoas parecem pensar a mesma coisa. Inclusive Charlie começa a ser atingido pela coisa.
É então que isso se torna uma questão para o filme. Como ele não adere completamente à crença de Rachel e não torna a amiga (ou agora ex-amiga) uma assassina serial de filme de terror, como ao mesmo tempo não demonstra nenhuma compreensão que não seja, digamos, clínica, para o acontecido, o filme passa a rodar em falso.
Ele poderia, por exemplo, tomar uma posição crítica em relação à maneira maníaca como as sociedades costumam reagir a esses fenômenos extremos. Mas esse não parece o caminho tomado por Kristoffer Borgli, que assina o roteiro e a direção do filme. Poderia desenvolver um viés crítico em relação ao bullying e seus perigos etc.
Com isso, o filme entra um buraco de onde sair se torna um problema, pois em vez de levar em conta um drama que atinge a todos (o bullying e sua decorrência, as matanças em massa) dedica-se a decifrar o caso particular de Emma, que na verdade torna-se de novo um caso de bullying, só que agora praticado pela ex-amiga.
Rachel vai se tornando um tanto obsessiva com essa história, e até mesmo o noivo, Charlie, passa a duvidar da noiva, de quem ela seja de fato sadia. E o filme não oferece um viés crítico capaz de reter nossa atenção.
Pode-se argumentar que isso acontece porque essa espécie de crime, esses massacres, são até hoje raros no Brasil (apesar dos esforços dos cultores de armas de fogo). Com isso, nossa empatia volta-se muito mais a crimes divulgados na TV e nas redes sociais e também tristemente frequentes no Brasil atual, como os assassinatos brutais de mulheres ou casos envolvendo policiais —como esquecer aquele que jogou uma de suas vítimas de um viaduto?).
Em suma, cada país tem seus problemas, seus “psicopatas” ou “sociopatas”, cuja catalogação nessas categorias serve para o restante da sociedade se sentir inocente desse acontecimento.
O espectador brasileiro pode, de todo modo, pensar que nossos problemas já são o bastante. Pode ser. Mas o fato de não se sentir implicado indica outra questão, que afeta o filme: certa incapacidade de implicar o espectador com o drama que se desenrola diante dele.
Na verdade, o filme produz um falso problema: será que Emma tem transtorno mental ou não? E começa a girar em torno disso, e a entrar em um buraco, junto com seus personagens.
Como se trata de um falso problema —saber se a moça era ou não psicopata—, o filme entra num buraco para onde arrasta os personagens e de que não consegue sair, pelo menos até a sequência final, bastante simpática e até surpreendente.
Seria injusto, no mais, não assinalar que filme a filme Robert Pattinson se afirma como um dos atores mais interessantes de sua geração, que Alana Haim (como Rachel) sofre, com razão, com o papel que lhe foi confiado e que Zendaya tem seu carisma. Em poucas palavras: pode ser que, na cultura de seu país este filme possa até fazer alguma sentido. Mas, aqui entre nós o drama em que se detém “O Drama”, parece, francamente, vir de outro planeta.