Vida e morte estão lado a lado, uma vulva de couro em invólucro metálico rodeada de estilhaços de vidro e um projétil, no alto de um altar, a inútil forma fálica, pau para toda obra das maiores violências. Os dois quadros de Helô Sanvoy ficam num canto da galeria, peças menores diante das monumentais agora em cartaz, mas que dizem tudo.
Vidro, couro trançado, ou esticado, a pele de gado marcado, e a madeira ou o metal, como moldura, integram o arsenal do artista. É um trabalho ancorado na história da violência contra corpos pretos, com um pé no fetiche sadomasoquista, afinal é de violência e um tanto de sexo que se fala na mostra na galeria Aura, em São Paulo.
Helô Sanvoy, um artista em ascensão, vai aos fundos da carnificina do dia a dia com orquestrações cristalinas de vidros quebrados e chumbados, o metal derretido sobre as peças, material que lembra prata, pode ser ouro e acaba próximo do piche e do asfalto. É a narrativa de Ícaro, dos céus ao abismo, como a pele plástica de um desastre, em instantes calculados.
Suas obras são oratórios às avessas, daqueles que católicos até a página dois, no país da suposta democracia racial, entendem como peça de decoração e índice de culpa a ostentar em salas de estar, sabendo que a empresa colonial fez ancestrais, alimenta serviçais e dá um verniz de pedigree dócil e violento até hoje, bom para os vernissages e noitadas fúteis em casa, de pó e champanhe, quando possível.
O detalhe do detalhe está nas molduras. A mais monumental, de madeira maciça, é um universo em pulsação, uma convulsão de couro em que relâmpagos de vidro trincado rompem a carne e despontam como corações transparentes, alguns mergulhados no chumbo derretido, todos penetrados pelas tranças de um couro às vezes natural, às vezes azulado. É o diorama da perdição, a denúncia da destruição em chave magnética —afinal, estamos no país em que a construção já nasce como ruína.
Embora a nova safra de trabalhos pareça atacar a superfície da religião, os santos sepulcros de dolorosas arestas de vidro, ele não abandona o terreno do modernismo, o minimalismo sujo em que a mão de obra barata e escravizada se disfarça de indústria. O artista, afinal, já foi à raiz da construção de Brasília num exercício de entendimento de quem merece ou não estar nos espaços de poder. O retorno da odisseia foi pavimentado pelos vidros quebrados pelo chão.