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Livro de Clarice Lispector com receitas já era conhecido – 08/04/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

A divulgação recente de um livro de receitas de Clarice Lispector tem mexido com o universo de pesquisadores e leitores de uma das principais escritoras brasileiras —tanto a autoria do livro quanto a de sua descoberta têm sido motivo de discussão.

Quem trouxe o livro “Cozinha para Brincar”, de 1970, aos holofotes no último mês foi um dos principais biógrafos de Clarice, o americano Benjamin Moser. Em entrevista à Folha, ele contou que não sabia da existência da obra e viu um exemplar encontrado na feira do Bixiga como algo inédito.

O livro, no entanto, já estava registrado em “À Procura da Própria Coisa”, de Teresa Montero, edição revista de 2021 da biografia “Eu Sou uma Pergunta”, original de 1999.

Na obra, a biógrafa brasileira cita “Cozinha para Brincar” no capítulo “Clarice Lispector Colaboradora” como um de dois livros em que a autora assinou um prefácio.

O papel de Clarice como colaboradora de títulos alheios ainda é pouco explorado, como aponta a doutora em literatura e pesquisadora Juliana Gervason. Segundo ela, essa é uma das dimensões da autora sobre as quais há menos documentos disponíveis.

Gervason conta ter adquirido, ela própria, seu exemplar de “Cozinha para Brincar” após ver o livro citado na biografia de Montero, o que indica que, embora pouco difundido, o livro não era desconhecido. “Quando algo já foi identificado e divulgado antes, mesmo que em um espaço mais restrito, é importante que isso seja reconhecido”, afirma.

Gervason aponta que a escassez inevitável de materiais inéditos de uma autora do tamanho de Clarice Lispector gera uma urgência por descobrir e anunciar novidades. A ânsia por uma “novidade editorial”, segundo ela, se relaciona com a lógica de funcionamento do mercado editorial e jornalístico.

“Isso pode ser observado em publicações recentes como a reunião dos contos e a edição das cartas que, embora relevantes, não chegam a constituir novidades substanciais, mas reapresentações de materiais já conhecidos.”

Montero, no entanto, não concorda com essa abordagem. “Se o livreiro encontrou o livro numa feira de antiguidades e informou ao biógrafo Benjamin Moser, então ele também descobriu, se não conhecia, descobriu”, diz ela. “E ele tem o direito de emitir a opinião dele. Como eu tenho e qualquer outro pesquisador. E todos temos que respeitar.”

“A obra de Clarice Lispector semeia paz, transformações positivas. Ela foi uma mulher correta, discreta, solidária. Ela não veio ao mundo pra dividir. Ela veio pra unir.”

A biógrafa afirma que soube de “Cozinha para Brincar” pesquisando na plataforma Estante Virtual, que vende livros antigos e usados. Ela o incluiu em sua biografia sem saber se já tinha sido mencionado por algum outro pesquisador.

Montero diz nunca ter lido o livro na íntegra, mas já ter folheado um exemplar no acervo da sobrinha-neta de Clarice. O que mais lhe interessou foi seu período de publicação. “A obra mostra como, em um momento em que a literatura para crianças engatinhava [no Brasil], Clarice já estava ali.”

Encontrou também, em sua pesquisa, um trecho de matéria publicada no Jornal do Brasil em 2 de julho de 1970, na qual a repórter Léa Maria escreve: “O livro é excepcionalmente bem-feito, muito colorido, com desenhos assinados por Odiléa Helena Setti Toscano e prefácio de Clarice Lispector (…) Já nas livrarias, o livro distribuído pela Companhia Editora Nacional, custa Cr$15”.

Gervason afirma que o ressurgimento do livro revela menos uma disputa por protagonismo e mais a necessidade de rigor sobre ineditismos. “Permanece uma certa ambivalência entre a satisfação de ver a obra de Clarice continuamente valorizada e a frustração diante da recorrente promessa de novidades que, em grande parte, não se concretizam.”

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